Há momentos em que a política consegue a proeza extraordinária de transformar uma boa notícia numa coisa pequenina, mesquinha e confrangedora. Foi isso que aconteceu em Beja. Inaugura-se um Palácio da Justiça, fala-se de milhões de euros, de melhores condições para cidadãos e profissionais, e acabamos todos a discutir convites, ausências, cores partidárias e quem tinha direito a aparecer na fotografia. Magnífico. A política no seu melhor.
A inauguração do novo Palácio da Justiça de Beja devia ter sido um momento de celebração para toda a região. O edifício representa um investimento superior a 5,7 milhões de euros, tem mais de 3.500 metros quadrados e sete salas de audiência. O próprio Governo classifica a intervenção como estruturante para a Justiça na região.
Mas a festa durou pouco. O PS do Baixo Alentejo acusou o Governo de ter convidado representantes eleitos do PSD e deixado de fora deputados e autarcas de outras forças políticas.
Do outro lado, o deputado Gonçalo Valente rejeitou a acusação e garantiu não ter recebido qualquer convite formal. E pronto. Estava montado o arraial.
Uns acusam. Outros respondem. Uns falam em partidarização. Outros lembram aquilo que os socialistas fizeram quando estavam no Governo.
E é precisamente aqui que começo a perder a paciência. O extraordinário argumento do “eles também faziam”
Há um argumento na política portuguesa que parece servir para justificar praticamente tudo: “Mas eles também fizeram.”
Se o PS fez durante anos, então o PSD fica autorizado a fazer agora. Se o PS regressar ao poder, poderá repetir porque o PSD entretanto também fez. Depois regressa o PSD, se regressar, e apresenta a fatura anterior. E assim sucessivamente. Uma espécie de economia circular da mediocridade política.
Tenho poucas dúvidas de que governos socialistas tenham cometido erros semelhantes. A utilização política de inaugurações não nasceu ontem e certamente não foi inventada pelo PSD.
Mas desde quando o erro dos outros passou a ser certificado de qualidade para repetirmos exatamente o mesmo?
Convém talvez recordar uma coisa: o Palácio da Justiça de Beja não pertence ao PSD. Também não pertence ao PS. Não pertence a Luís Montenegro. Não pertence a António Costa. Não pertence a Gonçalo Valente.
Pertence ao Estado e serve os cidadãos.
Por isso, na minha opinião, teria sido perfeitamente natural que os presidentes das câmaras municipais da região fossem formalmente convidados. Não porque são socialistas. Não porque são social-democratas. Não porque são comunistas. Mas porque são presidentes de Câmara e representam populações que também dependem das instituições e dos serviços públicos sediados em Beja.
E aqui chegamos a Gonçalo Valente, deputado e presidente da Distrital de Beja do PSD. Na minha opinião, teria sido tão simples quanto politicamente elegante sugerir ao Governo: “Convidem os autarcas da região, independentemente da cor partidária.” Não era uma obrigação, nem sequer lhe caberia organizar a lista de convidados. Era apenas um gesto. Um daqueles pequenos gestos que distinguem a política feita com sentido institucional da política presa às trincheiras partidárias. Afinal, representar um território também é saber colocá-lo acima das guerras entre partidos. Gonçalo Valente teve essa oportunidade. Na minha opinião, faltou-lhe essa grandeza política.
Mas o Palácio da Justiça não é sequer o primeiro episódio recente em que os convites para inaugurações provocam polémica no Baixo Alentejo.
Voltemos apenas uma semana e pouco atrás.
No dia 8 de setembro foram inauguradas as novas variantes rodoviárias do IP8 a Beringel e Figueira de Cavaleiros, com a presença do secretário de Estado das Infraestruturas, Hugo Espírito Santo. As intervenções fizeram parte de obras avaliadas em mais de 70 milhões de euros. Estamos, portanto, a falar de obras importantes para duas localidades.
Seria de esperar que os respetivos presidentes de Junta estivessem presentes.
Pois, não estavam.
Vítor Besugo, presidente da Junta de Freguesia de Beringel, e José Duarte, presidente da Junta de Freguesia de Figueira de Cavaleiros, manifestaram publicamente o descontentamento por não terem sido formalmente convidados para as inaugurações. Com razão.
Segundo os próprios autarcas, o presidente da Junta de Beringel nem sequer terá sido informado da realização da cerimónia. Já o presidente da Junta de Figueira de Cavaleiros disse ter tomado conhecimento no próprio dia através do presidente da Câmara de Ferreira do Alentejo e, sem convite oficial, decidiu não comparecer.
Fantástico. Inaugura-se uma variante construída precisamente para retirar trânsito de uma freguesia e consegue-se chegar ao dia da cerimónia sem garantir formalmente a presença do presidente dessa mesma freguesia. E, mais uma vez, Gonçalo Valente, enquanto deputado eleito pelo círculo de Beja e presidente da Distrital do PSD, podia ter contribuído para que as instituições do território fossem devidamente consideradas. Não o fez. Volto a repetir: representar uma região não é apenas estar presente quando chegam ministros e secretários de Estado. É também saber colocar o território e os seus representantes acima das pequenas guerras partidárias.
Temos estradas novas, variantes novas, dezenas de milhões de euros de investimento, mas, aparentemente, ainda não inventámos uma tecnologia suficientemente sofisticada para fazer chegar um convite a uma Junta de Freguesia.
Quando um membro do Governo se desloca a uma freguesia para inaugurar uma infraestrutura diretamente relacionada com essa população, convidar formalmente o respetivo presidente de Junta não deveria ser um favor partidário, deveria ser cortesia institucional básica.
É por isso que esta discussão sobre o Palácio da Justiça ganha uma dimensão particularmente irónica.
Quando os presidentes de Junta de Beringel e Figueira de Cavaleiros se queixaram de não terem sido convidados para as inaugurações das variantes, já estava lançado o alerta sobre a forma como estas cerimónias estavam a ser conduzidas.
Uma semana depois, voltamos praticamente à mesma discussão: Outro investimento. Outra inauguração. Outra polémica sobre convidados.
Se a política continuar reduzida a esta vingançazinha de capelinha: hoje não te convido porque ontem não me convidaste, amanhã excluo-te porque tu me excluíste ou porque és de partido diferente, não vale a pena fingirmos surpresa quando cada vez mais cidadãos olham para os partidos tradicionais e procuram outros caminhos.
António Lúcio
Director de Informação