O Baixo Alentejo sente-se traído. O Governo escolheu Tancos para instalar uma escola de pilotos, num investimento estimado em quinhentos milhões de euros, e os autarcas da região não escondem a revolta.
A decisão foi anunciada na última quarta-feira, 14 de outubro. A Comunidade Intermunicipal do Baixo Alentejo (CIMBAL), que representa treze municípios, classifica a escolha como uma “forte desconsideração pelo Baixo Alentejo” e dirige um protesto público ao primeiro-ministro, Luís Montenegro.
O projeto surge associado à privatização parcial da TAP e à entrada prevista da Lufthansa no capital da companhia. Para os autarcas, era a oportunidade de ligar o Baixo Alentejo a uma iniciativa de grande dimensão na aviação, e o aeroporto de Beja ficou, mais uma vez, de fora.
O presidente da CIMBAL, António José Brito, não poupa nas palavras. Em declarações à Rádio Pax, afirma que a comunidade “manifesta o seu desagrado e até oposição a esta escolha”, porque, nas suas palavras, “Beja reúne todas as condições para acolher esta escola de pilotos”. E lembra que Beja, “em muitos momentos, tem sido escola de pilotos”.
Os argumentos são vários. A CIMBAL recorda que o aeródromo de Tancos tem uso exclusivamente militar e precisa de adaptações para receber aviação civil. Já o aeroporto de Beja tem infraestruturas operacionais e permite utilização militar e civil. A região acolheu durante décadas o treino de pilotos militares na Base Aérea, incluindo no tempo em que recebeu forças alemãs.
A infraestrutura já serviu ainda para formar pilotos de aviação comercial.
António José Brito faz a comparação sem rodeios: “Tancos tem todo um percurso para fazer”, com um investimento na ordem dos quinhentos milhões, “e Beja tem todo esse investimento praticamente concluído”, com um aeroporto ao lado de uma base aérea. Uma conjugação que, diz, “já é um caminho muito adiantado”.
O presidente da CIMBAL vai mais longe: “O Governo preferiu optar por uma outra região em detrimento de Beja e do Baixo Alentejo. Isto é absolutamente errado, é algo que não faz sentido.” Garante que a comunidade “não se conforma” e que é preciso dizer “em voz bem alta” que se contesta uma opção que considera errada.
António José Brito assegura que a CIMBAL não foi ouvida nem consultada em nenhum momento. Se tivesse sido, diz, “teria transmitido a opinião do conjunto dos treze municípios”.
A polémica volta a pôr o futuro do aeroporto de Beja no centro do debate regional, numa altura em que os autarcas defendem maior utilização da infraestrutura e a captação de projetos que dinamizem a economia do Baixo Alentejo.