Helder Guerreiro: A Imprensa Regional

Comecei este ano de 2018 com uma forte dúvida e que tinha por base este título do jornal expresso, na versão online: “Dívida pública aumentou em novembro (de 2017) para €242,8 mil milhões”. Este título de um jornal de topo nacional, quando novembro de 2017 foi o terceiro mês consecutivo de diminuição da divida publica, num valor agregado de 7,4 mil milhões de euros, deixou-me perplexo pela sua falta de isenção e pela mais do que visível intencionalidade. Dirão que o título é verdadeiro se compararmos meses homólogos de 2017 e 2016 mas a procura do pior cenário para esconder, deliberadamente, o melhor cenário não deixa de ser preocupante.

É preocupante porque revela bem uma fragilidade na comunicação social. Fragilidade essa que pode ter diversas motivações e/ou origens. Pode ser porque esta comunicação social está capturada por uma agenda ideológica contra o governo em exercício e/ou porque pode estar capturada pela ideia de que uma noticia só é lida ou só tem impacto se for negativa. Qualquer uma das razões é preocupante até porque estamos a falar de um dos principais órgãos de imprensa escrita a nível nacional.

É ainda mais preocupante quando o que está em causa é a liberdade, sempre a liberdade. A forma como transmitimos a informação e a forma como as pessoas têm acesso à informação é uma das bases fundamentais da liberdade.

É básico porque a forma como percecionamos o mundo, as instituições e as pessoas está dependente da forma como temos informação sobre elas. Sobre essa informação construimos conhecimento e com ele tomamos decisões. No final do dia, tomar decisões em liberdade e com critério, fazem toda a diferença!

É por isso que somos todos e todas responsáveis por garantir que a comunicação social que temos é livre, tem qualidade na forma como comunica e que chega a todos e todas. Este é um desfio relevante que nos leva a um lugar determinante: o financiamento da comunicação social livre, de qualidade e que chegue a todos e todas. Se pensarmos nisso quando pensamos numa região como o Baixo Alentejo onde a baixa densidade demográfica (procura) está associada a um território enorme (mais custos de distribuição/acesso) e com uma muito baixa densidade institucional e empresarial (potencial financiador) então ai sim, temos um enorme desafio.

Este desafio talvez tenha inúmeras possibilidades e soluções mas no outro dia, numa reunião com presidentes de câmara, um dos nossos autarcas reforçou a necessidade de trabalharmos a construção de uma identidade do Baixo Alentejo antes de darmos passos e definirmos fronteiras sem essa coisa fundamental e que é as pessoas terem todas uma ideia correta do que é afinal o Baixo Alentejo!

Lembrei-me que uma comunicação social livre, de qualidade e que chegue a todos e todas pode ter um papel determinante na construção deste sentimento de pertença. É com uma comunicação regional implicada e a funcionar em rede que, penso eu, poderemos encontrar o espaço para discutirmos e construirmos esse desígnio coletivo.

Do ponto de vista prático talvez possa tudo começar com um grande encontro regional sobre “comunicação social em contextos de baixa densidade” ou no Baixo Alentejo. Esse encontro poderia muito bem ser iniciativa das Comunidades Intermunicipais do Baixo Alentejo e Alentejo Litoral, juntando toda a comunicação social regional num espaço de debate sobre como comunicar a região e dentro da região.

É, na verdade, um desafio exigente e que tem riscos mas, digo eu, mais vale ter uma comunicação social de qualidade e livre mesmo que para isso precise de ser capturada por todos e todas nós. Ou será suportada, ou apoiada ou será, antes, reconhecida por todos e todas nós!?