O Orçamento do Estado para 2027, o futuro do Hospital de Beja, os atrasos nas acessibilidades e a falta de investimento público no Baixo Alentejo estão no centro desta Grande Entrevista da Rádio Pax ao deputado do Chega eleito pelo distrito de Beja.
António Carneiro critica a resposta do Governo às necessidades da região e defende alterações ao Orçamento para garantir financiamento e calendários concretos para investimentos considerados essenciais.
A ampliação do Hospital de Beja merece particular atenção, numa altura em que o Governo autorizou 4,56 milhões de euros para a elaboração dos projetos de arquitetura e execução. O deputado reconhece a importância da decisão, mas considera que continua por esclarecer quando arrancam as obras e como será financiada a construção.
A A26, a modernização da ferrovia, os cuidados de saúde, a agricultura e o aproveitamento do Aeroporto de Beja são outros temas em análise, numa entrevista em que o deputado assume compromissos para 2027 e promete prestar contas do trabalho parlamentar desenvolvido em defesa do distrito.
RP – O Chega tem manifestado intenção de rejeitar o Orçamento, exigindo medidas como a redução da idade da reforma e a descida do IVA dos combustíveis e dos bens essenciais. O que teria de mudar para o partido alterar a sua posição? E que propostas concretas apresenta para o distrito de Beja?
AC – O Partido Chega votou contra o Orçamento do Estado para 2027 na generalidade porque entende que este Orçamento continua a não responder aos principais problemas das famílias portuguesas.
Não basta o Governo dizer que o país está melhor quando as pessoas continuam a sentir enormes dificuldades para pagar as suas contas ao fim do mês.
Para o Chega alterar a sua posição, o Governo terá de aceitar medidas concretas, e não apenas fazer promessas.
Defendemos a redução da idade da reforma para os 65 anos, sem penalizações para quem tenha pelo menos 40 anos de descontos, a descida do IVA dos combustíveis e a aplicação de IVA zero a um conjunto de bens alimentares essenciais.
Quem trabalhou uma vida inteira merece respeito. E os trabalhadores que utilizam o carro para trabalhar não podem continuar a suportar uma carga fiscal tão elevada sobre os combustíveis.
No distrito de Beja, onde as distâncias são grandes e o transporte público é insuficiente, estas medidas têm ainda maior relevância.
Mas há outras prioridades que não posso deixar de indicar.
Quero financiamento para a ampliação do Hospital de Beja, a conclusão da A26 até Beja e do IP8 até Vila Verde de Ficalho, a eletrificação da ligação ferroviária a Casa Branca, a modernização da linha até à Funcheira e a melhoria dos cuidados de saúde, principalmente dos cuidados primários em todos os concelhos do distrito.
Defendo também mais apoios à agricultura, à agroindústria e à indústria transformadora, respostas sociais para os idosos, nomeadamente o apoio domiciliário, incentivos à fixação de médicos e jovens e um verdadeiro aproveitamento do terminal civil de Beja, na Base Aérea n.º 11, integrado numa estratégia aeronáutica e de manutenção.
Não posso aceitar que o distrito de Beja continue a perder população, serviços e oportunidades enquanto o Governo anuncia investimentos noutros locais.
Em resumo, o Chega não quer um Orçamento cheio de promessas. O Orçamento do Estado tem de ter impacto na vida das pessoas.
RP – A ampliação do Hospital de Beja continua sem sair do papel. O Chega tem criticado o funcionamento dos serviços públicos de saúde. Mas, para além das críticas, que iniciativas concretas vai apresentar no Parlamento para garantir financiamento e um calendário para esta obra?
AC – A situação do Hospital de Beja é um bom exemplo da forma como o Baixo Alentejo tem sido tratado pelos sucessivos governos.
Há muitos anos que ouvimos falar deste investimento. São anúncios, estudos, compromissos e promessas, mas a obra continua sem avançar.
Estamos a falar de um investimento global estimado em cerca de 118 milhões de euros, fundamental para melhorar as condições do hospital e a resposta clínica às populações do Baixo Alentejo.
O Governo autorizou 4,56 milhões de euros para os projetos de ampliação do Hospital de Beja.
É um passo. Mas um projeto não é uma obra! E continuamos sem conhecer o financiamento integral da construção e o calendário da sua conclusão.
O Orçamento do Estado para 2025 já previa financiamento e procedimentos para esta intervenção. Estamos quase em 2027 e só agora foi autorizada a verba que permite avançar para o concurso do projeto de arquitetura.
Não podemos continuar a aceitar que aquilo que é urgente para a população seja constantemente colocado pelo Governo no fim das prioridades.
Da minha parte, vou defender, junto do Grupo Parlamentar do Chega, uma proposta de alteração ao Orçamento que garanta financiamento identificado para avançar com o projeto e um compromisso de execução plurianual da obra.
Vou também exigir ao Ministério da Saúde três respostas muito concretas: qual é a fonte de financiamento da construção, quando será lançado o concurso e qual é o calendário previsto para o início das obras.
Mas o problema da saúde no Baixo Alentejo não se resolve apenas com paredes novas.
Precisamos de mais médicos, enfermeiros, técnicos superiores e melhores condições para fixar profissionais na região.
Precisamos de garantir o funcionamento das urgências e melhorar o acesso às especialidades médicas, nomeadamente hematologia e radioterapia.
Também é fundamental garantir que os centros de saúde de Moura, Castro Verde e dos restantes concelhos tenham condições para responder às populações, com especial atenção aos Serviços de Urgência Básica de Moura e Castro Verde.
Não é aceitável que um cidadão do Baixo Alentejo tenha menos acesso à saúde simplesmente porque vive longe de Lisboa.
A saúde não pode depender do código postal.
O meu compromisso com os baixo-alentejanos é continuar a pressionar o Governo, apresentar iniciativas através do Grupo Parlamentar e dirigir perguntas aos responsáveis do Ministério da Saúde.
RP – O distrito de Beja continua à espera de investimentos fundamentais nas acessibilidades, nomeadamente na A26 e na ligação ferroviária a Casa Branca. O Chega vai apresentar propostas de alteração ao Orçamento para estas obras?
AC – Sim. Vou defender que o Grupo Parlamentar do Chega apresente propostas na especialidade do Orçamento para garantir que estas infraestruturas tenham financiamento e calendários concretos.
As acessibilidades são um dos maiores obstáculos ao desenvolvimento económico do Baixo Alentejo.
A A26 é um exemplo de promessas que atravessam governos, mas que continuam por cumprir.
Reconheço as melhorias recentemente realizadas no IP8, incluindo as variantes de Beringel e Figueira dos Cavaleiros. São importantes. Mas melhorar alguns troços de estrada não é a mesma coisa que concluir a autoestrada até Beja.
O Governo aponta agora para a conclusão do projeto da A26 em 2027 ou no início de 2028, ficando a construção dependente da avaliação ambiental.
É precisamente por isso que vamos exigir verbas para concluir o projeto, acelerar os procedimentos necessários e estabelecer um plano plurianual para a construção.
Quanto à ligação ferroviária entre Casa Branca e Beja, já existe uma autorização de investimento de cerca de 411 milhões de euros, mas para 2027 estão previstos apenas cerca de nove milhões.
A questão é simples: o Governo vai cumprir o calendário ou vamos assistir a mais um adiamento?
Quero garantir que a modernização e eletrificação avancem efetivamente e que, durante as obras, existam alternativas de transporte para quem depende do comboio para se deslocar.
E não posso abandonar a ambição de prolongar a ligação ferroviária até à Funcheira, recuperando uma ligação estratégica para o desenvolvimento da região.
Defendo ainda que o Aeroporto de Beja seja integrado numa estratégia nacional de transportes, logística e investimento.
Não faz sentido termos uma infraestrutura desta dimensão e continuarmos a assistir à perda de oportunidades económicas para outras regiões.
O Baixo Alentejo não pode continuar a ser esquecido quando chega o tempo de investir. É preciso transformar compromissos em investimentos.
RP – O Chega tem uma forte representação eleitoral no distrito de Beja e é o maior partido da oposição na Assembleia da República. Mas que resultados concretos conseguiu já para a região? E que compromissos assume para 2027 que permitam aos eleitores avaliar o seu trabalho?
AC – Essa é uma pergunta legítima. E os eleitores têm todo o direito de exigir resultados a quem os representa.
Eu não posso dizer que conseguimos construir uma estrada ou ampliar um hospital quando essas obras ainda não estão feitas.
Isso seria fazer exatamente a política de promessas que tanto critico.
Mas posso dizer que tenho levado problemas concretos do distrito de Beja à Assembleia da República, exigindo explicações e responsabilizando o Governo.
Na área da saúde, denunciei o risco de saída de 16 médicos dos centros de saúde do Baixo Alentejo, uma situação que poderia afetar milhares de utentes, e exigi soluções para garantir a continuidade dos cuidados.
Na área ambiental, apresentei um requerimento parlamentar para ouvir entidades públicas sobre a poluição na aldeia de Fortes, no concelho de Ferreira do Alentejo, dando voz a uma população que há demasiado tempo reclama respostas.
Também tenho exigido esclarecimentos sobre o financiamento das obras nos centros de saúde de Moura e Castro Verde, sobre os investimentos nas acessibilidades e sobre a distribuição dos fundos destinados ao Alentejo.
Mais recentemente, questionei o Governo sobre a escolha de Tancos para receber uma escola de pilotos, num investimento estimado em 500 milhões de euros, quando Beja possui uma infraestrutura aeroportuária com enorme potencial.
Estas intervenções não substituem as obras nem resolvem, por si só, os problemas. Mas são ações concretas de fiscalização e de defesa dos interesses da região.
E não confundo o trabalho parlamentar que já fiz com os resultados que ainda temos de alcançar.
Para 2027, assumo compromissos claros.
Vou colocar a ampliação do Hospital de Beja, a A26 e a ferrovia entre as principais prioridades parlamentares, exigindo financiamento, calendários e prestação de contas.
Vou continuar a defender melhores cuidados de saúde, respostas sociais para os idosos, nomeadamente o apoio domiciliário, mais apoio ao mundo rural e condições para fixar jovens, trabalhadores e empresas no distrito.
E assumo um compromisso adicional: prestar contas publicamente, ao longo de 2027, das propostas apresentadas, das respostas recebidas do Governo, das decisões tomadas e dos investimentos efetivamente executados.
Quero que os eleitores possam distinguir aquilo que foi prometido daquilo que foi realmente conseguido.
Não fui eleito para ficar calado perante os problemas do distrito, nem para justificar os atrasos dos sucessivos governos.
Fui eleito para defender as pessoas, as empresas, os agricultores, os trabalhadores e todos aqueles que querem continuar a viver e a trabalhar nesta região.
O meu compromisso é muito simples: não prometer aquilo que não depende de mim, mas lutar sempre por aquilo a que o distrito de Beja tem direito.