Marcos Aguiar: Os donos disto tudo

E, neste filme classe B, os maus não são vilões decadentes. Nada disso! Nesta fita entra a crème de la crème da elite nacional – os Donos Disto Tudo.

Estamos a falar de pessoas que comem à mesa de Presidentes da República e de Primeiros-ministros. A quem basta estalar os dedos para terem tempo de antena nas televisões e que ocupam o pináculo da plutocracia não assumida em que vivemos há mais de um século. Uma elite caduca, sem visão e sem pinga de responsabilidade social, que valoriza mais os títulos do que o mérito das pessoas. Gente que, pela força do poder recebido e transmitido por herança, há décadas condiciona as sucessivas lideranças políticas, que, por sua vez, se vão submetendo na expetativa de darem “o salto” para o lado dos Donos Disto Tudo.

Onde ficam a ética e os valores, quando ex-governantes, pouco depois de abandonarem cargos públicos para que são eleitos, se tornam gestores dos bancos ou das empresas de construção civil com as quais assinaram, pouco antes, contratos de milhões? Quando alguém, designado por um partido político para negociar o Memorando de Entendimento com a Troika, é, logo a seguir, chamado a administrar uma empresa pública entretanto privatizada? Quando um ministro das finanças, em plena vigência do Memorando de Entendimento, se demite para ingressar na direção do FMI – Fundo Monetário Internacional, entidade credora do Estado Português integrante da Troika? Quando deputados da Assembleia da República acumulam atividade pública e privada, numa flagrante incompatibilidade que, em regra, prejudica os interesses do Estado? Onde ficam a ética e os valores, quando o rombo estimado de 7 mil milhões de euros do BPN – Banco Português de Negócios não tem, até à data, os principais responsáveis castigados ou, sequer, identificados?

E o mais repugnante desta história é que, ainda em cima, temos de tolerar os Donos Disto Tudo e suas marionetas políticas a afirmarem que somos todos culpados da crise, como se tivesse sido o crédito malparado associado ao colchão ortopédico do Manel, ao LCD da Maria ou ao automóvel utilitário do João, que nos conduziu à atual situação de falência coletiva.

A frase-chave dos Donos Disto Tudo é: “Os portugueses andaram a viver acima das suas possibilidades”! Nós? Mas será que esta gente se consegue olhar ao espelho depois de afirmar isto? Logo nós, portugueses, que temos milhares de concidadãos a viverem de um ordenado mínimo de 485 euros/mês? Que recebemos em média 777 euros/mês para trabalharmos 40 horas por semana (ou mais), até aos 66 anos de idade? Então, o que dizer dos alemães e do salário médio de 3300 euros/mês auferido por este povo de hábitos frugais que, convenientemente, serve sempre de exemplo para os que nos tentam rebaixar ainda mais? Pior: o que dizer da possível nacionalização de prejuízos do BES – Banco Espírito Santo? Incluirá esta nacionalização os 900 mil euros anuais que o presidente do BES vai receber de reforma, como prémio de ter “rebentado” com uma instituição que ele tinha como missão administrar?

A verdade é que muitos portugueses, por terem de pagar por erros aos quais são alheiros, já nem estão “a viver”. Limitam-se a tentar sobreviver, suportando, em cima de uma dose brutal de austeridade, a arrogância daqueles que se julgam Donos Disto Tudo. E, diga-se, sem medo de errar e com as letras todas: não foi ao Manel, à Maria ou ao João que eles emprestaram os milhares de milhões em falta na nossa economia. Os Donos Disto Tudo endividaram-se nos mercados estrangeiros para, depois, emprestarem uns aos outros, como se pode comprovar no mais recente episódio desta triste história – a aplicação de 900 milhões de euros que a PT – Portugal Telecom fez em papel comercial da Rioforte, detida pelo Grupo Espírito Santo, num negócio que se revelou desastroso e com consequência imprevisíveis para a credibilidade do nosso país.

Mas esta história decadente nunca mais acaba? Quando é que teremos a coragem de gritar: OS donos disto tudo somos nós! Nós!

Nota Final – Ricardo Salgado, sobrinho-neto do fundador do BES, é conhecido junto do seu séquito por DDT – Dono Disto Tudo)

Um abraço, do tamanho do alentejo para o auditório da Rádio Pax