Marcos Aguiar: “Está a ver professor?”

O Diogo faz todos os dias 60 km para se deslocar para a escola. Ele vive em Mirandela e a escola mais próxima, com capacidade para o receber, fica em Vila Real. São 60 km para ir, mais 60 km para voltar. A soma dá 120 km/dia, está ver professor?

Mas as contas não ficam por aqui: a professora deste aluno (sua colega), porque vive em Macedo de Cavaleiros, que fica a pouco mais de 20 km de Mirandela, faz 85 km, duas vezes por dia, para dar aulas ao Diogo, em Vila Real – são 170 km. Somando as parcelas já vamos em 290 km/dia, que têm que ser percorridos para que o Diogo aceda a um direito consagrado na Constituição da República. São 6 mil km/mês para aceder a um direito constitucional, está a ver professor?

E veja igualmente o que diz a mãe do Diogo: “Tudo era mais simples se, em vez da criança se deslocar, pusessem um professor especializado para ele aqui em Mirandela, até porque temos uma escola que tem todo o tipo de materiais para ele poder usufruir”. Também o presidente da Associação de Pais e Encarregados de Educação de Alunos com Autismo vê a coisa pelo mesmo prisma e estima que estejam por colocar cerca de 80% dos técnicos especializados em todo o país. 80%, tal com 6 mil km, é muito, não é professor?

Mas continuemos com os números: soube-se, no início deste maldito ano letivo, que a percentagem de crianças e jovens com deficiência que recebem subsídio por educação especial, entre julho e agosto, caiu mais de 69%. Fazendo as contas, 3181 pessoas deixaram de receber este apoio. Diga-me professor, no seu modo de ver as coisas, 3181 são muitas ou poucas pessoas?

Voltemos ao Diogo: professor, ele é funcionalmente cego e não pode usufruir, sequer, da paisagem que separa Mirandela de Vila Real. Apenas vislumbra vultos e a doença é degenerativa, pelo que, um dia destes, vai deixar de ver totalmente. Daqui a quanto tempo? Não sei professor, mas sei que, entretanto, porque você não cumpriu com a sua missão, o Diogo faz todos os dias 120 km para ir às aulas. Está ver professor?

O professor desiludiu–me. A boa imagem que tinha de si desvaneceu-se completamente. Por isso, ficarei muito satisfeito quando deixar de ser ministro, mas manter-me-ei, ainda assim, muito preocupado por saber que continuará a ser professor. É que lhe falta visão. E não, não me refiro ao tipo de visão que limita o Diogo. Refiro-me a uma aptidão que todos os professores (que todo os Homens) deveriam ter – a capacidade de olhar para dentro de outro Ser Humano e ver.

O professor tinha a obrigação de perceber que (antes de todos os outros alunos) os “Diogos” têm direito a uma escola, a educação, a um país a sério, que os potencie enquanto cidadãos na sua plenitude. Envergonha-me viver num país que admite professores (quanto mais governantes) sem a capacidade de compreender que a deficiência é, sobretudo, uma construção social.

Sei agora que o professor não percebe do que falo. Sei que não consegue ver que o mérito académico não pode ser o único critério de progressão social, em prejuízo do valor dos atos, das ideias e dos sentimentos das pessoas.

Deixo-o, por isso, com a sua meritocracia cega, mas antes partilho consigo as sábias palavras do Professor (com P grande) Agostinho da Silva: “Ser mestre não é de modo algum um emprego e a sua atividade se não pode aferir pelos métodos correntes; ganhar a vida é no professor um acréscimo e não o alvo; e o que importa, no seu juízo final, não é a ideia que fazem dele os homens do tempo; o que verdadeiramente há-de pesar na balança é a pedra que lançou para os alicerces do futuro”.

Por isso, diga-me professor, afinal de contas, preocupa-o a forma como o Diogo vai olhar para si no futuro?

Um abraço, do tamanho do Alentejo, para todo o auditório da Rádio Pax.