Devemos acarinhar os eleitores do Chega? Não! Não podemos

Devemos acarinhar os eleitores do Chega? Não! Não podemos

16.595 VOTOS, NÃO É NÃO!

Nas últimas eleições legislativas do dia 10 de março verificaram-se algumas alterações àquilo que durante alguns anos aconteceu no distrito de Beja: PS, CHEGA e AD dividiram entre si os deputados em disputa, sendo que, pela primeira vez no período de democracia, a CDU ficou de fora, não elegendo nenhum deputado. Os eleitores baixo alentejanos escolheram livremente os seus representantes, portanto, nada a dizer.

A minha reflexão, amadurecida pelos dias, percorre o caminho de tentar entender qual o posicionamento, o que pensar, dos eleitores que votaram CHEGA, mais de 1 milhão a nível nacional e 16.595 no distrito de Beja. Quem são, o que pensam e quais as expetativas individuais e coletivas? As opiniões expressas por comentadores, analistas, responsáveis políticos e vox populi, em geral, convergem no sentido de respeito pelos eleitores do Chega, de compreensão quanto às “frustrações” dos mesmos, catalogando os votos como de “protesto”, negando que possam todos ser extremistas, xenófobos ou racistas. Luis Montenegro e o próprio Pedro Nuno Santos acompanharam igualmente esta argumentação nas suas intervenções pré e pós-eleições.

Um estudo referido no Jornal Expresso tentou medir a nostalgia do antigo regime entre eleitores dos vários partidos, “tendo o inquérito concluído que os simpatizantes do Chega são os que mais consideram que até 1974 Portugal estava melhor, que Salazar foi um dos melhores líderes da história, que os políticos portugueses deviam seguir os ideais de Salazar e que havia mais liberdade antes dos 25 de abril”.

Cas Mudde, especialista em populismo e em direita radical e extrema da Universidade da Geórgia (EUA) e professor de Ciência Política, afirmou ao Expresso: “Quem diz não entender o eleitor de extrema-direita é porque fez um esforço consciente para não entendê-lo”. Eu quero entender os 16.595 conterrâneos que votaram Chega, expressando o seu protesto pelas mais variadas razões ou motivos. Descontentamento com políticas económicas, sociais, razões corporativas, abandono do interior ou tantas outras que podem justificar o nosso sentido de voto. Todas elas legítimas em democracia.

Devemos por isso acarinhar e entender os eleitores do Chega? Normalizando institucionalmente as relações políticas e de poder com este partido?

Não! Não podemos.

Embora os motivos, razões ou queixas que alimentaram o descontentamento possam ser legítimas, estes eleitores escolheram um partido que luta contra os valores democráticos e apenas pretende chegar ao poder para destruir o sistema tal como o conhecemos.

O sistema democrático filho de abril, certamente com muitos defeitos e erros, acolhe e defende valores de solidariedade, de humanismo, preservando as diferenças religiosas, raciais, económicas e políticas, impulsionadores das sociedades progressistas.

Respeitar e compreender os eleitores do Chega não são, nem podem ser, razões suficientes para normalizar o partido. Não, é não!

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