João Paulo Ramôa : Às vezes o que parece não é, outras, o que é, não parece

Esta guerra que militarmente está a decorrer no espaço territorial da Ucrânia, tem várias e diferentes abordagens. Na vertente militar propriamente dita, somos inundados a todo o momento com análises, estratégias, avanços de uns e recuos de outros, intoxicados com linhas programáticas de fazedores de opinião pública, com a ajuda dos mídia e das redes sociais, num precedente nunca visto.

Mas não é sobre esta guerra visível, impiedosa, brutal e inadmissível, que hoje se baseia a minha reflexão. Mas de uma guerra silenciosa, que se desenvolve ferozmente de dia para dia e que a quase todos afeta, embora mais aos pobres do que aos ricos.

Não foi por acaso que os 35 Países em 181, se abstiveram na votação na ONU, e que na pratica representam cerca de 60% da população mundial, olharam com desconfiança para a narrativa do bom e  do mau, em que o ocidente desenvolvido, Nato e EUA, claro que tinham de ser os bons. Países como a China, Índia, Paquistão, África do Sul, por exemplo, é claro que repudiam a guerra e o principio elementar da soberania de cada Pais e as suas fronteiras, mas perceberam desde o inicio, que no bolo rei lhes ia calhar mais uma vez a fava.

Enquanto os americanos, olham militarmente apenas para o Pacífico, vão fazendo o que é tradicional na geopolítica e na diplomacia internacional, que é cuidar dos seus interesses e negócios. E ainda a procissão vai no adro, e já temos os americanos a vender agora e no futuro armamento como nunca o tinham feito antes, petróleo e gás, a uma Europa gorda  e anafada, mais uma vez entregue ao beneplácito protetor do nosso padrinho americano, que esfrega as mãos de contente, antecipando para si um pós guerra de grande pujança económica.

Ao mesmo tempo, os tais 60 % da população mundial, confrontada com as consequências das sanções económicas, muito pouco eficazes se comparado com os efeitos, já sentem e esperam o efeito boomerang, com a diminuição de produção de trigo e milho, base da sua alimentação, subida de preços do cabaz básico de compras, subida da energia e combustível, e assistem impotentes a um empobrecimento rápido.

Na geopolítica e política internacional, a hipocrisia é rainha, e o que prevalece são os interesses económicos de cada um. Claro que não foram estes que motivaram esta maldita guerra, mas o curso  do seu desenvolvimento, a inércia ou o voluntarismo de quem a pode resolver e não resolve, ou só o resolve quando lhe interessar, tem muito mais  a ver com os interesses  económicos  para si, do que o ideal de uma luta a favor da liberdade, democracia e direitos humanos

Mais uma vez isso está a acontecer, e o que parece não é, e o que é, não parece…….

João Paulo Ramôa

Engenheiro