Vítor Silva: O inferno

Este ano a área ardida em Portugal, até agora é de 350 mil hectares. Por curiosidade fiz os cálculos e concluí que isso corresponde a cerca de 3,7% da área de Portugal Continental.
Este valor, por si só, já é uma barbaridade, mas se atendermos a que as cidades, vilas, aldeias, cursos de água, lagos, albufeiras e zonas inundadas, constituem espaços onde o fogo normalmente não chega, então esse valor de 3,7% subirá bastante, relativamente ao conjunto do território continental passível de ser atingido pelos incêndios.
Tal como no futebol, onde todos são treinadores de bancada, também agora todos são especialistas em incêndios. Não sou nem quero ser especialista nesta matéria, mas não me demito de emitir algumas opiniões. Penso ser óbvio que para combater este flagelo se deve actuar em duas frentes. Primeiro na prevenção e depois no combate.
Quanto à prevenção é necessário saber se o país está preparado para enfrentar condições meteorológicas extremas, como aquelas que temos estado a viver. Obviamente que não estamos. Devem chamar-se os especialistas em meteorologia, em ordenamento florestal, em ordenamento do território, em prevenção e no final os políticos que passem a leis e a regulamentos as conclusões desses especialistas.
Quanto ao combate aos incêndios, parece-me evidente que as actuais estruturas e meios de que dispomos só são capazes de responder aos incêndios ditos normais. Em condições extremas, como as que se têm verificado, os meios e as estruturas mostraram a sua ineficácia. Isto sem desculpar os erros que tem havido em toda a estrutura de comando, do topo até à base.
Finalmente há que tentar estabelecer um consenso entre todas as forças políticas ou pelo menos entre aquelas que representam a grande maioria dos que votam, para a criação de um modelo que minimize o impacto destas desgraças que tão frequentemente nos atingem. Aqui é que eu antecipo o maior problema. É que o clima de crispação política que domina o país não tem permitido que praticamente nenhum consenso tenha sido possível.
É talvez altura de o Presidente Marcelo fazer valer a quase unanimidade de que goza entre os portugueses e assuma a difícil tarefa de os pôr de acordo. Confesso que gostaria de ver o Marcelo a tirar uma selfie com o Costa, o sucessor do Coelho, o Jerónimo, a Catarina e a Cristas, todos juntos.