Opinião: Aldo Passarinho

Ai olha para nós.

É com grande interesse que aguardo para ver a exposição de arte contemporânea Rapture de Ai Weiwei, patente na Cordoaria Nacional em Belém, até ao dia 28 de novembro. Se não bastasse o interesse de poder ver muitas das suas obras mais antigas, estou particularmente curioso com a materialidade das suas obras mais recentes produzidas com recurso à cortiça e ao mármore.

Ai Weiwei é um dos grandes nomes da arte contemporânea, ativista e crítico do regime chinês a partir de uma obra artística assumidamente auto-biográfica, mas sensível para as problemáticas que o afetam, que a todos nos tocam, como por exemplo: a crise dos refugiados no mediterrâneo. 

Ao assumir-se como refugiado politico, Weiwei assume uma posição nómada – que o trouxe até Portugal, e a sua obra reflete essa circunstância. Obras como Law of the Journey (2017), basicamente um barco insuflável negro que nos remete para crise dos refugiados no mediterrâneo; ou o documentário Human Flow (2017), obrigam-nos a questionar sobre a complexidade dos movimentos migratórios.

O documentário Human Flow causa particular ressonância quando Weiwei sublinha que: “…o mundo está a encolher e milhões de pessoas com diferentes religiões, diferentes culturas vão ter que aprender a viver umas com as outras…”. E, é isto! Nem todos vamos conseguir bilhete para Marte… Vamos ter que aprender a viver uns com os outros! A olhar sem julgar e à curiosidade do olhar do outro, sem que isso nos faça sentir mais inseguros.

E sobre “olhar sem julgar”, não posso deixar de referir o documentário Começar de Novo, do Ricardo Espírito Santo. Um documentário com dois testemunhos absolutamente maravilhosos de imigrantes que recomeçaram as suas vidas em Portugal, onde destacam a forma abnegada como foram acolhidos.

Como pai e professor, não posso deixar de sugerir a oportunidade pedagógica, oferecida pela exposição Rapture e pelos documentários Human Flow e Começar de Novo, para trabalharmos a empatia e o pensamento crítico subjacente à complexidade das vidas por trás do olhar de cada imigrante, a começar pelo olhar do Ai Weiwei.

Aldo Passarinho

Professor do Instituto Politécnico de Beja