Opinião: Gavino Paixão

Ainda no rescaldo das eleições autárquicas de 26 de setembro, importa analisar uma situação, aparentemente paralela, mas que pode sustentar algumas leituras políticas importantes: as “candidaturas de independentes”.

A abertura da lei às candidaturas independentes surgiu com a revisão constitucional de 1997 e concretizou-se nas eleições de 2001 para permitir que cidadãos pudessem, fora da órbita partidária, apresentar projetos e candidatarem-se nos seus concelhos sem qualquer símbolo ou amarra partidários.

Infelizmente, na sua grande maioria, nem sempre a “filosofia da lei” esteve presente, servindo apenas de “capuz” para “independentes” ressabiados com os respetivos partidos, vinganças pessoais e/ou partidárias.

Ao longo das eleições autárquicas, tal tem se verificado com frequência, prejudicando os projetos encabeçados por verdadeiros cidadãos independentes, deturpando o real espírito e filosofia da “Lei dos Independentes”.

No Distrito de Beja, nas últimas eleições autárquicas, verificámos apenas uma situação de candidatura independente, em Vidigueira, encabeçada pelo ex-presidente de câmara Manuel Narra.

Curiosamente, ou talvez não, surgiu em MÉRTOLA, uma outra candidatura supostamente “independente”, também ela encabeçada por um ex-autarca, presidente de câmara, Jorge Pulido Valente. Os anseios de independência eram de tal ordem que, para ganhar tempo e independência, não optou pelo caminho da elaboração de listas para criação de um movimento de cidadãos, nos termos da Lei que dá escopo a tal possibilidade, mas na realidade negociou a sua candidatura com os Partidos Nós Cidadãos e RIR.

Dando legitimamente seguimento ao seu desejo em ser candidato à autarquia da sua terra, JPV conseguiu entregar a tempo a única prova da sua DEPENDÊNCIA, o cartão empoeirado de militante do PS que o tinha acompanhado nas presidências de Mértola e Beja, nas direções regionais do Ambiente e da Comissão de Coordenação do Alentejo, entre outros momentos da sua reconhecida carreira profissional e política.

Embora apregoando aos 4 ventos e à comunicação social a sua recem independência, realizando sessões com “a sociedade civil”, apresentando ideias e projetos realmente imbuídos da “filosofia independente”, lutando para que Mértola se libertasse do jugo político-partidário que dominava os órgãos municipais, JPV tornou-se um fantasma de si próprio.

Livre, vestal e independente, mas UM FANTASMA!

A população do concelho de Mértola na sua enorme sabedoria, acompanhou tudo o que era dito ou não dito, ouviu, analisou, pensou e no dia 26 de setembro, democraticamenteelegeu os vários órgãos autárquicos.

A democracia funcionou e, uma vez mais, as pessoas decidiram entre partidos de esquerda ou direita, independentes mais ou menos livres e fantasmas.

Destes fantasmas, alguns foram mandados de regresso ao ALÉM.

Gavino Paixão

Jurista