Opinião: Hugo Lança

O drama de convidar cromos repetidos para logo pela manhã aborrecer os ouvintes é obrigar os incautos a ouvir o que antes já foi dito e repisado. Claro que, se o bom leitor tiver a benevolência para nos escutar até poderá pensar que se trata de alguma estranha forma de coerência quando, acredite, me limito a repetir um dos meus mantras de estimação.

Assim, regresso hoje a um dos meus temas porque por estes dias muitos dos candidatos autárquicos já são conhecidos e outros segredos muito mal guardados, com o singelo intuito de lhes agradecer pela coragem e ousadia de se apresentarem às eleições.

Não é segredo que sou amigo de vários candidatos, conheço muitos outros alguns não faço ideia quem são e, não escondo, alguns não tenho especial prazer em conhecer. Mas, a todos saúdo pela audácia. Num tempo em que a política ativa faz parte do cadastro e não do currículo merece uma imensa saudação o facto de muitos milhares de cidadãos levantarem-se dos sofás reais e metafóricos e lutarem pelas suas convicções.

Sem eufemismos: é fácil ser como os Hugos. É cómodo e confortável estar nos bastidores, fazer umas críticas e lançar uns elogios, amiúde uma piadinha e dizer que se tem ideias fantásticas sem se sujeitar à luta democrática. Difícil é colocar a cara nos cartazes. E, não digo isto porque alguns candidatos, sejamos honestos, não são particularmente fotogénicos.

Afirmo-o porque o complexo de dar a cara e assumir uma candidatura é expor-se à maledicência, ao insulto, à acusação infundada e absurda, tantas vezes por arautos da vulgaridade e da calúnia, gentalha que nunca levantou um dedo para ajudar o próximo, perdida nos umbigos do egoísmo, mas sempre pronta para vomitar ódios e frustrações.

Por tudo e especialmente porque eles não o podem dizer, digo-o eu: ganha-se pouco na política para aturar tanta imbecilidade, atualmente exacerbada nas redes sociais e só por elevado compromisso cívico é que pessoas com currículo pessoal e profissional relevante se sujeitam a eleições locais, cientes que estão condenados a falhar, porque como Bauman há muito nos ensinou as cidades tornaram-se “depósitos de lixo para os problemas gerados globalmente. Os moradores das cidades e os seus representantes eleitos tendem a ser confrontados com uma tarefa que nem por exagero de imaginação seriam capazes de cumprir: a de encontrar soluções locais para contradições globais”.

Por isso, pessoalmente, limito-me a deixar o meu obrigado aos Paulos e Paulas, aos Nunos e Nunas, aos Jooes e às Joanas, pela insanidade de se submeterem a este triste jogo democrático.

Hugo Lança

Professor IP Beja