Opinião: Hugo Lança

Hoje sonhei que caminhava nas ruas da minha cidade ao encontro do céu estrelado sobre mim. As ruas estavam imaculadamente limpas, porque no meu sonho as pessoas não se despojam dos seus dejetos nas calçadas nem empilham lixo junto dos caixotes e os cães obrigam os cuidadores a apanhar as suas defecações.

Nas ruelas, cruzei-me com pessoas que falavam português com heterógenas entoações e sotaques e esbarrei com diversas línguas cujas palavras não  consegui identificar e sorri para comigo feliz com esta diversidade. Porque sou apaixonado pela diferença e a homogenia aborrece-me.

No sonho, caminhava despido! Mas sorri por não sentir qualquer constrangimento. Os transeuntes com quem me cruzei sabem que mais importante que criticar as imperfeiçoes alheias é manter-se centrados nos seus próprios eu, nas suas falhas e incompletudes.

Enquanto caminhava vislumbrei sorrisos e ouvi desconhecidos a cumprimentarem-se com um discreto “bom dia” e, pasme-se, escutei alguns “obrigados” por pequenas gentilezas como segurar portas ou permitir a passagem.

No meu percurso, vi pessoas a fotografar igrejas e museus, esplanadas cheias de sorrisos, vi gente com livros no regaço, ouvi música algures por entre as calçadas e meninas a correr atrás de uma bola e petizes a saltar à corda, para desconsolo das play stations e dos tablets algures fechados em gavetas a conspirar contra as bicicletas que circulavam por estradas proscritas aos carros.

No meu sonho as pessoas conversavam nos olhos dos outros e não se escondiam na ignominia das redes sociais e no seu covil de maledicência indecente, construindo uma verdadeira utopia em que tínhamos a coragem de assumir as nossas diferenças com gentileza, sem falsidade ou aquela imbecil frontalidade dos tolos. Porque neste meu sonho as pessoas tinham percebido que aquilo que as une é muito mais do que aquilo que as separa e, como ensinou Newton, vê mais longe aquele que caminha nos ombros dos gigantes.

Depois, um latido na rua fez-me acordar e percebi que preferia ter continuado no meu surrealista mundo onírico… 

Hugo Lança

Professor do IPBeja