Opinião: Hugo Lança

De todos os confinamentos das nossas vidas, há dois que me assustam mais do que os outros. Refiro-me ao confinamento intelectual e ao confinamento emocional. 

Tenho empatia pelos empresários que foram coagidos a fechar as suas empresas e estou solidário com os milhares que perderam o emprego ou sofreram cortes em salários que já antes eram indignos para a subsistência e entendo aqueles que leiam soberba nas minhas palavras. 

Mas, se o confinamento económico e social me assusta, apavora-me o confinamento intelectual daqueles que estão presos a preconceitos, que se agarram aos mais infames lugares-comuns e que acriticamente papagueiam e difundem os maiores dislates vomitados com ódio nas redes sociais. Aterroriza-me sentir o crescimento de uma turba de populismo demagógico, quer de esquerda quer de direita [porque as iniquidades não têm ideologia e os extremos confundem-se, pois, não obstante os registos diferentes, são siameses], que se alimenta do medo e da ignorância, com a cumplicidade daqueles que preferem os ataques e as catalogações pessoais a debater as pseudo-ideias destes grupos, num tempo em que a opinião pública se confunde com a opinião publicada e em que uma larga maioria se mantém silenciosa dando palco aos agnorantes, neologismo para classificar os novos ignorantes cheios de arrogância e de certezas absolutas.

Como, porque nunca achei que ia ficar tudo bem, amedronta-me o confinamento emocional daqueles que são incapazes de ver além do seu próprio umbigo e que perante uma tragédia global têm uma única preocupação: o que fazer para isto só afetar os outros ou como aproveitar a pandemia para ganhar algum tipo de vantagem… 

Basta ler ou assistir aos discursos morais dos indignados para perceber nas entrelinhas (tudo menos ocultas) que vivem obcecados com o seu Eu, absolutamente insensíveis perante a desgraça alheia e, inclusive, com sorrisinhos tolos perante o infortúnio do outro. 

E, temo, contra estes confinamentos, nem a pfizer é capaz de encontrar um medicamento milagroso que faça levantar valores morais… 

Hugo Lança

Professor universitário