Opinião: Miguel Ramalho

Abril de novo

Daqui a cinco dias assinalamos o 47º aniversário da Revolução de Abril. Numa quinta-feira normal de Abril, no início do 3º período escolar no já longínquo ano de 1974, Escola Preparatória Frei Baltazar Limpo em Moura, a memória que não passou foi a informação de um professor, perante os rumores do que se estaria a passar que ‘um grupo de bandidos estava a cercar Lisboa’… não fixei nem o nome do professor nem a disciplina que lecionava mas a expressão macaca que utilizou manteve-se até hoje.

Até essa data, criança ainda, convivemos, sem noção concreta do que isso implicaria, com as angústias dos nossos pais de podermos ter de ir para a guerra colonial e a esperança, repetida mais pelas mães, vezes sem conta, de que quando chegar a essa altura já a guerra terá acabado.

Residente numa freguesia rural de onde até ao 25 de abril havia meia dúzia de jovens que em média ia para além da escolaridade obrigatória, à data a 4ª classe, no ano letivo seguinte, entre Amareleja e Póvoa, muitas vezes era necessário desdobramento nas carreiras porque apenas um autocarro não era suficiente para assegurar o transporte de todos, quando os horários de entrada coincidiam.

A democratização do acesso à educação foi uma das inúmeras e inesquecíveis conquistas da revolução… algo que parece irreversível, tão natural como respirar, para os nossos filhos e netos mas que foi tão difícil conquistar para os seus pais e avós.

A melhoria das condições de vida da população foi visível nesses anos pós-revolução. Não fora a feroz ofensiva contra-revolucionária e a situação hoje seria outra. Por isso, quando hoje ouvimos alguns defender que antigamente é que era bom, a toda essa direita, a tradicional e a emergente, esta última, que emana da outra, numa prova de que o sistema tenta sempre encontrar formas de se reinventar e aos que se iludem com eles, com saudades desse Portugal em que toda a gente era pobre à exceção daquela pequeníssima parte que era rica, resta-me afirmar com gosto que também eu ‘não ponho flores neste cemitério’.

Miguel Ramalho

Chefe de gabinete do Presidente da Câmara de Vidigueira