Rui Garrido: O Ministério da Agricultura e as suas verdades “de la palice”

O nosso país está numa situação de seca agrometeorológica severa e extrema, o que motivou um despacho do governo, assinado pela Ministra da Agricultura, para determinar que este facto “consubstancia um fenómeno climático adverso, com repercussões negativas na atividade agrícola”. Ou seja, uma equipa do governo reuniu-se e produziu um despacho, publicado em Diário da República, que depois de lido com toda a atenção, traduz uma verdade de la palice. Melhor seria que fosse chover no molhado. Mas é menos do que isso. O Despacho apenas determina que “é reconhecida a existência de uma situação de seca severa e extrema, agrometeorológica, em todo o território continental, o que consubstancia um fenómeno climático adverso, com repercussões negativas na atividade agrícola”. O problema, o grande problema, é que isso já nós todos sabemos. Esta é uma evidência até para os mais distraídos. O grande problema é que deste despacho não saiu nenhuma medida. Nem deste despacho, nem das sucessivas promessas feitas pela Ministra da Agricultura. Nem aquelas que foram prometidas na Ovibeja, mesmo que “paliativas” como foram apelidadas, nem o pagamento antecipado referente ao Pedido Único (primeiro previsto para Maio e depois para Junho), que obrigou os agricultores a deslocarem-se e a preencherem dois processos, um a seguir ao outro, para uma suposta ajuda que mais não foi do que expectativas goradas.

Os agricultores merecem respeito. A seca já é uma dura penalização às suas condições de trabalho. Tal como os aumentos exponenciais dos preços das matérias-primas, de fertilizantes, de combustíveis e de energia, dos alimentos para os animais, em resultado da guerra e também da seca. Porque provocam ainda redução da quantidade e da qualidade das produções. E degradação das condições socioeconómicas dos produtores e dos territórios rurais. Os agricultores estão na primeira linha na produção de alimentos e na salvaguarda da segurança e da soberania alimentar. Precisam de se sentir acompanhados, sob pena de muitas fileiras de produção agroalimentar colapsarem. São necessários e urgentes apoios não só do governo português, como da União Europeia. Porque se hoje sentimos o esforço do aumento dos preços, amanhã podemos sentir a falta de produtos essenciais nas prateleiras dos supermercados.  

Rui Garrido

Presidente da ACOS