Vítor Silva: Aeroporto de Beja e Força Aérea

Ficou agora a saber-se, pela voz do nosso Presidente da Câmara, que a Força Aérea Portuguesa deuum parecer negativo à instalação de uma escola de pilotos no Aeroporto de Beja. Essa escola previa a presença de várias aeronaves, trinta pilotos, instrutores e mecânicos e a frequência de uma centena e meia de alunos.
A Força Aérea já veio confirmar essa sua posição, ligando-a à futura utilização da Base Aérea do Montijo como aeroporto complementar do de Lisboa, o que levará a que uma parte ou a totalidade do seu dispositivo militar aí sediado seja realocado em Beja. Acrescenta a Força Aérea que, deste modo, a Base de Beja passará a ter uma utilização de tal modo intensiva que poderá impedir que outras aeronaves, que não as suas, possam utilizar as pistas.
No entanto a Força Aérea deixa em aberto que, quando o seu dispositivo estiver definitivamente estabilizado em Beja, poderá reapreciar a sua posição. Sem ser adivinho creio que tal só deverá acontecer daqui a dois ou mais anos.Faço notar que um dos grandes problemas com que se depara hoje a aviação comercial a nível mundial é o da falta de pilotos, pelo que o mais provável é que os promotores desta escola não estejam dispostos a esperar até que a Força Aérea se digne dar uma resposta a esta pretensão e procurem outras paragens.
Relativamente a estas justificações da Força Aérea, só tenho a dizer uma coisa: são tretas. É sabido que os militares não gostam que as suas instalações sejam partilhadas com civis por razões de segurança, umas vezes justificadas e outras nem por isso. Mas também porque se julgam uma casta aparte, superiores à sociedade civil e depositários dos mais nobres valores da pátria. É verdade que são eles que estão em primeiro lugar disponíveis para dar a vida por ela, mas não nos esqueçamos que ao longo da nossa história os militares vieram do povo. As Forças Armadas portuguesas sempre foram o povo em armas.
Numa altura em que ameaças próximas ao nosso país não se vislumbram, é altura de as nossas Forças Armadas contribuírem ainda mais para o nosso desenvolvimento. Aqui em Beja a Força Aérea sempre foi bem acolhida e até há uma rotunda à entrada da cidade que simboliza essa amizade mútua. Não continue,pois,a Força Aérea a colocar todo o tipo de obstáculos, como tem feito até aqui, para que a utilização do terminal civil que existe na base aérea não seja uma importante alavanca para a economia regional.
O actual movimento aéreo na Base do Montijo, a ser transferido para Beja, é perfeitamente compatível com aquele que existe hoje em Beja e deixa ainda uma enorme margem para uma utilização civil bastante mais intensa. Assim a Força Aérea tenha vontade e interesse nisso.
Mas, a Força Aérea não é um estado dentro do estado, depende do governo e em primeiro lugar do ministro da Defesa, que agora até é um novo e que dizem altamente competente. Vamos então ver se a paixão pelo interior tão apregoada pelo governo é mesmo verdadeira ou não passa de propaganda vazia, e se assim como nos deixaram a não ver passar os comboios, agoratambémficaremos a não ver passar os aviões, a não ser, claro, os da Força Aérea.