Vitor Sílva: E o comboio?

Agora que já assentou a poeira do programa da RTP1, “Prós e Contras”, em que o tema foi o Alentejo e que motivou inúmeros comentários em todo o tipo de plataformas, é também a minha vez de botar opinião.
Não vou fazer uma análise ao conjunto do programa. Apenas pretendo falar daquela parte em que o ministro Capoulas Santos disse que não se poderia melhorar a ligação ferroviária Casa Branca-Beja, porque é prioritário construir a linha ferroviária Sines-Évora-Caia.
Esta afirmação do senhor ministro está ferida de uma demagogia atroz, pois que não estamos a falar de custos comparáveis. No caso da linha Sines-Évora-Caia o custo ronda os 600 milhões de euros, segundo as próprias palavras do ministro, enquanto que no caso da linha Casa Branca-Beja o custo seria da ordem das poucas dezenas de milhões de euros para a sua electrificação. Há quem fale em 20 milhões. Sejamos honestos: as duas obras podem fazer-se, haja vontade política por parte do governo.
Ora aqui é que está o nó. É que parece que da parte do governo, esta parte do Alentejo é para esquecer, no que às ligações ferroviárias diz respeito. Primeiro deixam-se degradar os comboios, depois substituem-se por autocarros, qualquer dia propõem-nos que a ligação a Casa Branca se faça por carroça puxada a animais e quando já não houver ninguém disposto a viajar nessas condições, levantam-se os carris e vendem-se para a sucata.
Mas isto só acontecerá assim se ficarmos quietos e conformados. Se apertarmos os “ditos cujos” ao governo, as coisas podem mudar. E existem todas as condições para o podermos fazer. Então não é verdade que todas, eu repito, todas as câmaras municipais da região estão nas mãos de partidos que apoiam a actual solução governativa?
Do Partido Socialista regional já sabemos que é tradicional não falarem muito alto ao governo quando ele é da mesma cor, mas agora, como eu já disse numa crónica anterior, não há desculpa se as coisas não forem feitas. Mas o Partido Comunista, agora minoritário na região também tem as suas responsabilidades. Não interessa nada, nem adianta nada, fazerem aprovar moções a reclamarem isto e aquilo.Basta que o camarada Jerónimo coloque como condição para continuar a apoiar o governo, a resolução do problema que atrás falámos. E o mesmo se diga da tia Catarina.
Uma última palavra para os representantes do Movimento Beja Merece Mais presentes naquele “Prós e Contras”, Bruno Ferreira e Florival Baioa. Alguns acusaram-nos de terem sido mal-educados e até arrogantes no modo como se dirigiram ao ministro. Não estou nada de acordo com essas críticas. Eles estiveram muito bem. Aos governos há que falar “curto e grosso”. Por cá é que ainda subsistem esses resquícios do salazarismo em que quando nos dirigíamos ao governo era na postura de “atentos, venerandos e obrigados”. Nada disso. Eles, governos, é que nos devem agradecer por os termos posto no poder. Mas no poder para nos servirem. E se não o fizerem: rua e venham outros.

ADENDA: Já depois desta crónica ter sido escrita e gravada o ministro do Planeamento e das Infraestruturas, Pedro Marques, declarou, durante o debate na especialidade do Orçamento de Estado para 2018, que o Governo vai dar prioridade à aquisição de material circulante para as linhas do Alentejo, Oeste e Douro. Segundo ele Beja poderá beneficiar no próximo ano de uma ligação directa a Lisboa com recurso a comboios preparados para circular em toda a extensão da linha.Quanto à electrificação da linha nada disse. Trata-se de uma promessa, com o valor facial que qualquer promessa não escrita e não orçamentada tem. Registemos, mas não desmobilizemos.