Vítor Silva: Ficar velho

Às vezes era bom podermos parar o tempo, especialmente quando nos aproximamos daquela idade em que os outros, e nós próprios, passamos a ser velhos.
É verdade que a medicina e os cuidados de saúde têm aumentado muito a esperança de vida média, fazendo que a velhice chegue mais tarde. Também é verdade que não se chega a velho de repente.É um processo mais ou menos longo em que vão aparecendo sinais de que a chamada terceira idade se aproxima.
E não são apenas sinais que o nosso corpo nos vai dando, como cansarmo-nos mais depressa, termos cada vez mais dores aqui e ali, os ossos começarem a gemer, a probabilidade de sermos sujeitos a uma intervenção cirúrgica ser maior, enfim esses sinais são cada vez mais numerosos. Mas são também os sinais que a sociedade e os outros nos vão dando: pagamos menos nos transportes públicos e nos museus, temos prioridade de atendimento em algumas circunstânciase há quem nos dê, a partir de certaidade, um cartão a que chamam de idoso, e que é um certificado a dizer que agora és mesmo velho.
Confesso que tudo isso tem vindo a acontecer comigo, com a excepção do tal cartão de idoso. Estes sinais, internos e externos, recebo-os umas vezes em negação, outras com preocupação, mas sobretudo com resignação temperada com algum sentido de humor.
Mas às vezes sou apanhado de surpresa. Como aconteceu há pouco tempo quando, por razões profissionais, estava na Alemanha e à saídade uma estação de metro as escadas rolantes estavam paradas em manutenção. Carregava eu comigo uma mala de vinte e cinco quilos, além de uma mochila com quase dez. Lá fui subindo as escadas como pude, tendo parado a meio para descansar e ganhar fôlego. Eis senão quando um jovem adulto se aproximou de mim e me perguntou se precisava de ajuda para carregar as coisas escada acima. Agradeci-lhe educadamente mas recusei,negando a evidência de que estava com dificuldade em cumprir a tarefa. Com algum custo lá cheguei ao topo das escadas e depois dos pulmões voltarem a funcionar normalmente comentei com o colega que me acompanhava:
“Os alemães estão a ficar cada vez mais simpáticos”.
“Não”, respondeu-me ele, “tu é que estás a ficar velho”.