Vítor Silva: O espírito de Natal

Não sendo crente da religião cristã, nem aliás de qualquer outra, confesso que durante muito tempo esta época do ano me deprimia. Talvez porque achava que havia muita hipocrisia no ar, talvez por pensar que os votos de Boas Festas não passavam de meras formalidades, talvez porque as manifestações de solidariedade me soavam a falso. A verdade é que era uma época que me deixava abatido. Havia até uns amigos, com quem convivia e que sentiam o mesmo que eu, com quem me juntava, e onde na casa de uns ou de outros ou deambulando pelas ruas e cafés, combatíamos aquilo a que chamávamos o “Espírito de Natal”.
Foram anos e anos de luta assanhada para tentarmos sobreviver até à passagem do ano, onde o Espírito de Natal já não está presente, dando lugar ao deus Baco. Consegui, eu e os meus companheiros de luta, sobreviver, mas sempre com inúmeras mazelas e sem que o Espírito de Natal mostrasse quaisquer sinais de fraqueza. Com o tempo as forças e a vontade foram-nos faltando e acabámos por nos render à evidência: o Espírito de Natal é invencível.
E assim quando o ano dá os seus últimos suspiros lá me sujeito a receber e a mandar as Boas Festas, a participar em inúmeros almoços e jantares de Natal, cujos efeitos a balança nunca me deixa esquecer, a ouvir com resignação em todo o lado as mesmas canções natalícias cheias de amor de plástico, a tropeçar em cada esquina com um Pai Natal de barbas artificiais e uma almofada a fazer de barriga.
Mas pronto, isto são só mais uns dias e depois volta tudo ao normal. Assim sendo, ficava-me mal não desejar as Boas Festas a todos os ouvintes, aos trabalhadores da Rádio Pax e em geral às pessoas de boa vontade.