Vítor Silva: O espírito de natal

Se, como criança, o Natal foi sempre uma época de felicidade para mim, quanto mais não fosse pela existência de presentes que no restante ano não abundavam, já a minha adolescência e o começo da idade adulta foram de grande animosidade contra a época natalícia.
Problemas pessoais de crescimento, mas também a convicção de que a época tinha mais de falsidade que de verdade, contribuíam para essa minha atitude. Entendia e ainda entendo que muita da felicidade que impregna o final do ano tem muito de artificial, mas que essa pseudo felicidade contribui e muito para o boom comercial, lá isso contribui. A acrescer a isto, o frio. Sempre fui uma pessoa muito friorenta e o frio natalício desde sempre afectou negativamente a minha disposição.
Durou muitos anos esta minha aversão ao Natal. Lembro até que, ano após ano, eu e um amigo costumávamos deambular pela cidade combatendo aquilo a que chamávamos o “Espírito de Natal”. Mas pouco a pouco fomo-nos dando conta que essa era uma batalha perdida e acabámos por seguir a velha máxima: “Se não os podes vencer, alia-te a eles!”
E a partir dessa altura passei a conviver bem com o Natal ou quase. Enesta altura do ano até me sinto mais feliz ou quase. E este quase tem a ver com a única coisa a que, por mais que me esforce, não me consigo habituar e me causa um mal-estar geral, vómitos e até sintomas de depressão e que é a omnipresente, avassaladora, esmagadora, música de Natal.