Vítor Silva: O Menino Jesus e o Pai Natal

Há poucos dias convidaram-me para a inauguração de um presépio tradicional em Santiago do Cacém, em que a população local participou, tanto na montagem como no empréstimo de figuras. Embora não sendo religioso, confesso que gostei e lembrei-me de uma crónica que publiquei no Natal de 2008, da qual se permitem recordarei aqui uma parte.
Dizia eu nessa crónica:
Quando eu era miúdo o Natal era vivido sob o símbolo do presépio, cuja figura central é o Menino Jesus. O presépio, na sua essência, representa uma família pobre, num pobre estábulo, cuidando do filho recém-nascido. Diz-se que a criança era filha de Deus, mas a mensagem de família é para mim a fundamental.

Segundo a lenda vieram de longe três reis magos oferecer presentes ao Menino Deus. Daí ficou a tradição de se oferecerem presentes no Natal, presentes esses que seriam trazidos pelo próprio Menino Jesus. Os presentes eram normalmente modestos, porque modestos eram também os rendimentos da esmagadora maioria das famílias.

Mas os tempos mudaram, o capitalismo trouxe cada vez maiores rendimentos às famílias e o Natal foi visto como uma grande oportunidade de se fazerem enormes lucros através de transacções comerciais, através das compras. Mas para isso o Menino Jesus e o presépio não serviam, com a sua mensagem limitada ao amor, à família, à adoração religiosa e à modéstia.

Era necessário outro símbolo que apelasse ao consumo desenfreado. E aí o sistema capitalista foi buscar a personagem do Pai Natal. Apoiado por uma formidável máquina de propaganda a nível mundial, o Pai Natal, até aí uma figura de segundo plano, transformou-se rapidamente no símbolo do Natal. Desde as maiores empresas capitalistas do mundo até ao mais pequeno centro comercial, todos passaram a usar o Pai Natal como promotor das suas vendas.

Já imaginaram o Menino Jesus a servir para promover a venda de bebidas, de automóveis, de brinquedos, de perfumes e de roupas? Claro que não, o Menino Jesus não serve para isso. Ainda por cima tendo como único promotor da sua imagem uma Igreja Cristã sem meios financeiros e sem conhecimentos de marketing, foi quase sem dar luta que o Menino cedeu o primeiro lugar do palco para o velho barbudo.

Será porventura utópico querer fazer reviver tradições que já se perderam. É verdade que o Natal continua a ser uma festa da família e que nesta época do ano cruzam-se as mensagens de votos de BoasFestas e os actos de solidariedade. Mas o que primordialmente se adora no Natal já não é o Deus Menino. Agora adora-se principalmente o Deus Consumo, representado pelo Pai Natal.

Apesar de tudo não quero deixar de endereçar os meus desejos de Boas Festas a todos os ouvintes e também aos que na Rádio Pax trabalham.