Vítor Silva: O PAN e o politicamente correcto

As últimas eleições para a Assembleia da República, em 2015, alargaram a representação parlamentar a um partido ainda novo e que até aí nunca lá tinha estado representado. Refiro-me ao PAN. Pessoas, Animais e Natureza, eis o que ele pretende defender, encontrando um equilíbrio justo e sustentável na relação entre os seres humanos e os animais e também na relação dos humanos com a natureza.
Não tendo sido um votante nesse partido, confesso que vi com alguma simpatia o seu aparecimento na cena política que é o parlamento. Como balanço, considero sua acção positiva, tanto dentro como fora da Assembleia da República, embora, aos olhos da opinião pública, o PAN apareça como um partido apenas defensor dos direitos dos animais, talvez porque tradicionalmente os outros partidos não se preocupassem com eles.
No entanto, na sua acção, o PAN tem-se deixado cair nalguns exageros, possivelmente porque uma grande parte dos seus eleitores identificam-se apenas como amigos dos animais, quase que os igualando nos seus direitos aos seres humanos, o que é um perfeito disparate.
Nesta sua visão algo distorcida da relação entre as pessoas e os animais, o PAN parece também querer render-se ao politicamente correcto no modocomo nos referimos a estes últimos.
Uma organização internacional chamada PETA (People for Ethical Treatment of Animals) vem agora propor que se deixe de usar uma linguagem anti animal (segundo eles) em certos provérbios. Como por exemplo “pegar o touro pelos cornos” ou “matar dois pássaros com uma pedrada”. Pois não é que o líder e deputado do PAN, André Silva, veio manifestar simpatia pela ideia, afirmando que “as palavras de facto importame havendo liberdade, criatividade e humor não vejo qualquer problema”.
Vá lá que o senhor deputado não veio propor a proibição dos tais provérbios, com expressões anti animais (segundo eles). Esquece-se quem assim pensa que a linguagem é feita da sedimentação de séculos e séculos de cultura e que dela fazem parte palavras, ditos e provérbios que às vezes correspondem a ideias e comportamentos que já não fazem o mesmo sentido que antes, mas que ilustram bem, e muitas vezes com humor, aquilo que queremos dizer. Uma linguagem depurada de tudo isto seria pobre, insípida e aborrecida. Entreguem a análise da grande literaturaaos iluminados do politicamente correcto e verão o que de lá sai: uma coisa intragável.
Mas voltemos ao nosso deputado, líder do PAN. Diz ele que já começou a adequar a sua linguagem, dizendo “em águas de tremoço” em vez de “em águas de bacalhau”, “muitos anos a virar pimentos”, em vez de “muitos anos a virar frangos” ou “pregar dois pregos de uma só martelada” em vez de “matar dois coelhos de uma cajadada”.
Só me apetece dizer que se os deputados do PAN, em vez de um fossem dois, o que me apetecia era “arrumar dois deputados de uma cajadada”.