Vítor Silva: Quem quer vir trabalhar para o Alentejo?

Agora que as discutidas “Alterações Climáticas” ameaçam tornar o Alentejo, a médio prazo, numa extensão do deserto do Saara, é bom saber que a principal ameaça que impende sobre a nossa região é a do seu despovoamento.
Com a idade média da população residente a subir continuamente, está inviabilizada a renovação e o aumento dessa mesma população. Se a isto somarmos a permanente saída de muitos dos que cá nascem, está explicado o facto de o Alentejo ter hoje aproximadamente o mesmo número de habitantes que tinha no princípio do século XX, isto é, há mais de cem anos.
E com poucos habitantes, ainda por cima envelhecidos, torna-se muito difícil, para não dizer impossível, adaptarmo-nos às ditas alterações climáticas e muito menos desenvolvermo-nos significativamente.
Já noutras crónicas abordei aqui este assunto,para o qual não vislumbro outra solução que não seja a vinda de pessoas de fora da região, para aqui trabalharem e viverem. Mas para isso a região terá que disponibilizar oportunidades de trabalho que a população local não seja capaz de preencher, e por outro lado proporcionar condições de vida atractivasa quem para cá vier. Estas duas condições parece-me que estão em parte preenchidas: há falta de pessoas para preencherem postos de trabalho, por exemplo na agricultura e no turismo, e o Alentejo é uma óptima região para se viver.
Na agricultura são hoje muitos milhares os que vieram de fora para aí trabalharem. No entanto são na maioria dos casos explorados com salários indignos e vivendo em condições muito precárias. Além disso, o facto de estarem frequentemente ligados a redes internacionais de empresas empregadoras (legais ou ilegais), faz com que circulem pelo território onde a sua mão-de-obra é necessária, mas sem se fixarem. Essa mão-de-obra que vem de fora da região não tem nacionalidade portuguesa, o que mostra que não há mão-de-obra nacional, em número significativo, para vir trabalharpara o Alentejo.
A Organização Internacional do Trabalho, entidade dependente das Nações Unidas, em estudo publicado recentemente, estima que, face ao envelhecimento da população da Europa, até ao ano de 2030 incorporar-se-ão neste mercado de trabalho cerca de 26 milhões de jovens até aos 30 anos de idade e que desses 86% serão africanos e asiáticos, fundamentalmente africanos. As perguntas que se colocam são estas: a futura força laboral do Alentejo terá uma grande componente de trabalhadores vindos da África e da Ásia? E se não forem destes continentes donde virão eles? Claro que isto, a acontecer, será um processo gradual, mas que poderá ser mais rápido do que se possa agora prever.
De qualquer modo não deixaria de ter graça, vir a ter, daqui a alguns anos, uns grupos de cante, formados, por exemplo, por guineenses, nigerianos, somalis, nepaleses e alguns alentejanos, tudo misturado.