O concelho de Ourique corre o risco de ficar sem qualquer médico de Medicina Geral e Familiar pertencente ao quadro do Centro de Saúde no início de 2027. O alerta é deixado pelo presidente da Câmara Municipal, Marcelo Guerreiro, numa Grande Entrevista à Rádio Pax, em que faz o balanço do primeiro ano do seu último mandato consecutivo e aborda os principais desafios do concelho.
Apesar de considerar positivo o trabalho desenvolvido, o autarca reconhece atrasos em projetos importantes, nomeadamente no Centro Empresarial, um investimento que poderá atingir os quatro milhões de euros.
A falta de habitação é outra das preocupações. Num recente concurso para a atribuição de seis casas municipais, a Câmara recebeu mais de 40 candidaturas elegíveis. Marcelo Guerreiro pretende disponibilizar 40 habitações até ao final do mandato e avançar com duas novas urbanizações.
O presidente da Câmara aborda ainda a ligação de Alqueva à barragem do Monte da Rocha, que deverá criar uma nova área de regadio de cerca de 2.300 hectares, e critica os atrasos na requalificação do IC1 e as intervenções insuficientes na estrada da Funcheira.
A fixação de população, a criação de emprego e o reforço dos serviços públicos são outras prioridades de Marcelo Guerreiro, que defende políticas específicas para os territórios do interior.
Numa entrevista em que reconhece o trabalho realizado, mas também aquilo que ficou por cumprir, o autarca revela os investimentos que pretende concretizar antes de deixar a presidência da Câmara de Ourique.
Grande Entrevista a Marcelo Guerreiro, presidente da Câmara Municipal de Ourique
RP – Um ano depois da sua reeleição, que balanço faz do trabalho realizado? Quais foram as principais conquistas e o que ficou por concretizar?
MG – Faço um balanço positivo, mas sobretudo com a consciência de que ainda temos muito trabalho pela frente.
Este primeiro ano ficou marcado pela concretização de investimentos importantes para o concelho, alguns dos quais resultam de vários anos de trabalho, planeamento e persistência.
Na saúde, temos finalmente o novo Centro de Saúde de Ourique em funcionamento, um investimento de cerca de 2,5 milhões de euros. Na habitação, concluímos a reabilitação de 39 fogos no Bairro do Rosal, estamos a concluir novas habitações na antiga Casa dos Médicos e iniciámos a construção de quatro apartamentos na Avenida 25 de Abril.
São investimentos que representam melhorias concretas na vida das pessoas e que demonstram o trabalho que temos desenvolvido em áreas essenciais para a qualidade de vida dos ouriquenses.
Mas não escondo aquilo que falta concretizar. Gostaria que o Centro Empresarial estivesse mais avançado, que tivéssemos conseguido disponibilizar mais habitação e que algumas intervenções na rede rodoviária, tanto municipal como nacional, já fossem uma realidade.
A gestão autárquica exige capacidade de concretização, mas também persistência perante dificuldades que nem sempre dependem exclusivamente do Município.
Continuamos a ter desafios muito exigentes, nomeadamente na fixação de população, na criação de oportunidades económicas e na garantia de serviços públicos de qualidade.
O nosso compromisso é continuar a trabalhar com a mesma determinação, colocando sempre as pessoas e o futuro de Ourique em primeiro lugar.
RP – A habitação é uma das prioridades do município. Quantas famílias aguardam uma resposta e quantas habitações pretende disponibilizar até ao final do mandato?
MG – A habitação é, provavelmente, um dos maiores desafios que temos hoje em Ourique.
Há alguns anos, encontrar uma habitação a preços acessíveis no nosso concelho era relativamente simples. Hoje, temos uma realidade muito diferente, com famílias, jovens e trabalhadores que querem viver em Ourique e encontram dificuldades para conseguir uma casa.
No concurso que realizámos recentemente para a atribuição de seis habitações municipais, tivemos mais de 40 candidaturas elegíveis. Este número demonstra bem a dimensão das necessidades existentes e confirma aquilo que sentimos diariamente no contacto com as pessoas: há muitas famílias que precisam de uma resposta habitacional.
Estamos a executar a nossa Estratégia Local de Habitação. Concluímos a reabilitação de 39 habitações no Bairro do Rosal, estamos a finalizar novas habitações na antiga Casa dos Médicos e temos em construção quatro apartamentos T2 no antigo edifício da Segurança Social.
A nossa ambição é disponibilizar 40 habitações municipais até ao final deste mandato, reforçando a capacidade de resposta às necessidades das famílias.
Mas queremos ir mais longe. Pretendemos também disponibilizar duas novas urbanizações no concelho, criando condições para aumentar significativamente a oferta habitacional.
Numa delas, o Município já adquiriu o terreno e aprovou a necessária reconversão do solo, estando agora em condições de avançar para a elaboração do projeto.
Paralelamente, queremos incentivar o investimento privado na construção e reabilitação de habitação, porque sabemos que o Município, por si só, não conseguirá dar resposta a todas as necessidades.
Mas é fundamental perceber que este esforço não pode ficar exclusivamente sobre os ombros das autarquias. Precisamos de financiamento do Estado central para continuar a investir em habitação pública. Os municípios têm demonstrado capacidade para identificar necessidades, desenvolver projetos e concretizar investimentos, mas necessitam de instrumentos de financiamento que lhes permitam dar continuidade a este trabalho.
A habitação é um problema nacional e exige uma resposta nacional, com particular atenção aos territórios de baixa densidade, onde o mercado privado, por si só, nem sempre consegue responder às necessidades existentes.
Para nós, a habitação não é apenas uma questão social. É uma condição essencial para o desenvolvimento económico e demográfico de Ourique. Não podemos querer atrair empresas, fixar jovens e receber novas famílias se não tivermos casas disponíveis.
É por isso que esta continuará a ser uma das grandes prioridades do nosso mandato.
RP – Em que ponto está o projeto do Centro Empresarial de Ourique? Que investimentos estão previstos para criar emprego e atrair novos residentes?
MG – O Centro Empresarial de Ourique é um dos projetos estruturantes deste mandato e uma das minhas principais prioridades.
Não escondo que o projeto está atrasado relativamente ao calendário que tínhamos ambicionado. Infelizmente, o projetista responsável não conseguiu dar a resposta necessária, nem imprimir ao processo a velocidade que pretendíamos.
É uma situação que nos preocupa e que queremos ultrapassar rapidamente, porque temos plena consciência da importância deste investimento para o futuro do concelho.
O Município adquiriu os terrenos, concluiu o processo de planeamento territorial e queremos agora ultrapassar os constrangimentos existentes para avançar com a concretização do projeto.
Estamos a falar de um investimento que poderá atingir cerca de quatro milhões de euros e que permitirá disponibilizar espaços devidamente infraestruturados para acolher novas empresas e apoiar o crescimento das que já existem.
Queremos valorizar setores estratégicos da nossa economia, nomeadamente o agroalimentar, a transformação dos nossos produtos, os serviços e outras atividades económicas com potencial de crescimento.
Mas o objetivo é muito claro: criar emprego, gerar riqueza e dar às pessoas mais razões para viver e trabalhar em Ourique.
Não podemos resignar-nos à ideia de que os nossos jovens têm de sair para encontrar oportunidades profissionais.
Queremos um concelho capaz de atrair investimento, de apoiar o empreendedorismo e de oferecer melhores perspetivas de futuro às próximas gerações.
O Centro Empresarial é, por isso, muito mais do que uma infraestrutura. É uma aposta estratégica na capacidade de Ourique gerar oportunidades e contrariar a perda de população.
RP – A ligação do Alqueva à barragem do Monte da Rocha estará concluída até ao final deste ano? Quando poderá a região começar a beneficiar desta infraestrutura?
MG – Esperamos que sim. Esse é o compromisso assumido pelo poder central e pelas entidades responsáveis pela concretização deste investimento.
Naturalmente, acompanhamos com muita atenção a evolução dos trabalhos, até porque estamos a falar de uma obra absolutamente estruturante para o futuro do nosso território.
A ligação do Alqueva ao Monte da Rocha é um investimento pelo qual a região lutou durante muitos anos e representa uma transformação profunda para o Campo Branco.
Tem duas dimensões fundamentais.
A primeira é a segurança do abastecimento público de água, particularmente importante num território como o nosso, que enfrenta períodos de seca cada vez mais exigentes.
A segunda é o desenvolvimento económico, através do reforço do regadio existente e da criação de uma nova área de regadio de cerca de 2.300 hectares, com impacto no nosso concelho.
Esta infraestrutura permitirá criar novas oportunidades para a agricultura, diversificar a atividade económica, atrair investimento e gerar emprego.
Agora, importa que os compromissos assumidos sejam cumpridos e que, depois da conclusão da obra, a sua entrada em funcionamento aconteça com a maior rapidez possível.
A chegada da água do Alqueva ao Monte da Rocha não pode ser vista apenas como a conclusão de uma obra. Tem de representar o início de um novo ciclo de desenvolvimento para esta região.
RP – Com os investimentos no Centro de Saúde de Ourique e nas extensões de saúde, que melhorias podem esperar os utentes? Há médicos de família e profissionais suficientes?
MG – O novo Centro de Saúde de Ourique é uma conquista muito importante para o nosso concelho.
Foram muitos anos de reivindicação e de trabalho até conseguirmos concretizar este investimento de cerca de 2,5 milhões de euros, que permitiu dotar Ourique de um equipamento moderno, com melhores condições para os utentes e para os profissionais.
Estamos também a desenvolver a requalificação da Extensão de Saúde de Garvão e queremos concretizar a intervenção prevista para a Extensão de Saúde de Panóias.
Contudo, temos hoje uma preocupação muito séria relativamente aos recursos humanos.
Não temos médicos de família em número suficiente e a situação poderá agravar-se significativamente no início do próximo ano.
O atual diretor do Centro de Saúde está prestes a reformar-se e, com a sua saída, corremos o risco de ficar sem qualquer médico de Medicina Geral e Familiar pertencente ao quadro do Centro de Saúde de Ourique.
É uma situação que nos preocupa profundamente e que exige uma resposta urgente por parte das entidades responsáveis.
Não podemos investir milhões de euros em equipamentos modernos e depois não garantir os profissionais necessários para assegurar os cuidados de saúde às populações.
Quero, contudo, deixar uma mensagem muito clara: o Município de Ourique não quer limitar-se a identificar o problema ou a exigir responsabilidades. Queremos ser parte da solução.
Estamos disponíveis para trabalhar com a Unidade Local de Saúde do Baixo Alentejo e com o Ministério da Saúde, procurando encontrar respostas que permitam atrair e fixar profissionais de saúde no nosso concelho.
Já tivemos oportunidade de transmitir estas preocupações diretamente ao Conselho de Administração da ULSBA e continuaremos a acompanhar esta situação com a máxima atenção.
Mas também é importante que o Governo compreenda que os territórios do interior enfrentam dificuldades acrescidas na atração de profissionais e que são necessárias medidas específicas para responder a essa realidade.
A saúde é um direito fundamental. E quem vive em Ourique, independentemente da sua idade ou da freguesia onde reside, tem direito a cuidados de saúde de proximidade e de qualidade.
RP – Que novidades existem relativamente à requalificação do IC1 e de outras estradas do concelho? Que investimentos estão previstos para as freguesias mais afastadas da sede do município?
MG – As acessibilidades continuam a ser uma das nossas principais preocupações e uma condição essencial para o desenvolvimento económico e para a qualidade de vida das populações.
No que respeita à rede rodoviária nacional, temos situações que exigem respostas mais rápidas e intervenções mais consistentes por parte das Infraestruturas de Portugal.
Na estrada da Funcheira, por exemplo, foram intervencionados apenas cerca de 800 metros, quando a necessidade de requalificação abrange aproximadamente dois quilómetros.
É uma decisão que considero incompreensível. Não faz sentido realizar uma intervenção parcial e deixar por resolver uma parte significativa dos problemas existentes numa via tão importante para as populações.
Relativamente ao IC1, recordo que a sua requalificação foi anunciada há cerca de dois anos. No entanto, até agora, apenas foi executada uma intervenção num troço a norte do concelho.
Continuamos a aguardar que a intervenção de fundo anunciada seja concretizada e esperamos que isso possa acontecer muito em breve.
O IC1 é uma via estruturante, não apenas para Ourique, mas para toda esta região, e não pode continuar a ser sucessivamente adiada a necessária melhoria das suas condições de segurança e circulação.
Os anúncios são importantes, mas aquilo de que as populações verdadeiramente precisam é que as obras sejam executadas.
No que depende diretamente do Município, continuaremos a apostar na beneficiação da rede viária municipal.
Uma das nossas prioridades é a requalificação da Estrada do Saraiva, que estabelece ligação ao concelho de Odemira. Trata-se de uma intervenção importante para as populações e para as acessibilidades do território, que queremos concretizar.
A nossa ambição é criar condições para que esta obra possa ser iniciada já no próximo ano.
Continuaremos também a investir nas nossas freguesias, na melhoria das infraestruturas, dos espaços públicos e das condições de mobilidade.
Defendo que viver em Garvão, Panóias, Santana da Serra ou Santa Luzia não pode significar ter menos oportunidades ou menor acesso aos serviços essenciais.
A coesão territorial não se faz apenas com discursos. Faz-se com investimento e com respostas concretas às necessidades das populações.
RP – A perda de população e o envelhecimento continuam a preocupar. Que medidas concretas estão a ser desenvolvidas para fixar jovens, atrair famílias e combater a desertificação?
MG – Este é o grande desafio estratégico de Ourique e de grande parte dos territórios do interior.
Não podemos pensar que vamos inverter décadas de perda populacional com uma medida isolada ou apenas com incentivos financeiros.
Precisamos de criar condições para que as pessoas possam construir aqui o seu projeto de vida.
É por isso que a nossa estratégia combina várias áreas de intervenção.
Na habitação, estamos a aumentar a oferta municipal, queremos disponibilizar 40 habitações até ao final do mandato e avançar com duas novas urbanizações, criando condições para acolher mais famílias e estimular o investimento privado.
Na economia, queremos concretizar o Centro Empresarial, apoiar o investimento privado e criar condições para mais emprego. A ligação do Alqueva ao Monte da Rocha constitui também uma oportunidade importante para dinamizar a atividade económica e atrair novos investimentos.
Na educação, continuamos a investir nas nossas escolas, nas bolsas de estudo para o ensino superior e no apoio às famílias.
Na saúde e nos serviços públicos, estamos a criar melhores condições para que viver em Ourique não represente uma desvantagem face aos territórios mais populosos.
Mas existe também uma dimensão que considero fundamental: a capacidade de integrar quem chega ao nosso concelho.
Hoje, Ourique é um território que acolhe pessoas de diferentes nacionalidades, que trabalham, criam famílias e contribuem para a nossa economia e comunidade.
Essas pessoas também fazem parte do futuro de Ourique.
Há, no entanto, uma questão que importa sublinhar: os territórios do interior não podem continuar a enfrentar desafios nacionais com instrumentos de resposta iguais aos dos grandes centros urbanos.
Precisamos de políticas públicas diferenciadas, de incentivos ao investimento, de financiamento para a habitação e de uma aposta efetiva nos serviços públicos de proximidade.
O Município tem de fazer a sua parte, e estamos a fazê-la, mas combater a desertificação exige também uma verdadeira estratégia nacional de coesão territorial.
O nosso objetivo é simples: fazer de Ourique um concelho onde os jovens possam ficar, onde as famílias encontrem condições para viver e onde quem chega encontre oportunidades para construir o seu futuro.
RP – Este é o seu último mandato consecutivo. Que projetos considera indispensável concluir e como gostaria de ser recordado pelos ouriquenses quando deixar a presidência da Câmara?
MG – Tenho plena consciência de que este é o meu último mandato consecutivo como presidente da Câmara Municipal de Ourique.
Mas isso não altera a forma como encaro as minhas responsabilidades. Pelo contrário, reforça a determinação de concretizar os compromissos que assumimos com os ouriquenses.
Há projetos que considero absolutamente fundamentais.
Quero ver o Centro Empresarial concretizado, avançar com as duas novas urbanizações, disponibilizar mais habitações para as famílias e criar melhores condições para atrair investimento e emprego.
Quero concluir os investimentos na saúde, contribuir para que existam respostas médicas adequadas às necessidades da população e continuar a melhorar as acessibilidades, nomeadamente com a requalificação da Estrada do Saraiva.
Quero também que o concelho saiba aproveitar as oportunidades económicas que vão resultar da ligação do Alqueva ao Monte da Rocha.
E quero continuar a valorizar a educação, a cultura, as nossas freguesias e os serviços públicos, porque o desenvolvimento não se mede apenas pelo investimento realizado, mas sobretudo pela forma como melhora a vida das pessoas.
Quanto à forma como gostaria de ser recordado, confesso que não é algo em que pense diariamente.
Entrei na vida autárquica com uma enorme ligação à minha terra e com uma vontade genuína de contribuir para o seu desenvolvimento.
Sempre procurei exercer estas funções com proximidade, dedicação e sentido de responsabilidade, sabendo que nem sempre é possível corresponder a todas as expectativas.
Naturalmente, gostaria que os ouriquenses reconhecessem esse compromisso.
Mais do que ser recordado por uma obra ou por um projeto em particular, gostaria de deixar um concelho com melhores condições de vida, mais oportunidades e mais confiança no futuro.
Porque, no final, o mais importante não é aquilo que fica associado ao nome de um presidente. É aquilo que fica para as pessoas e para as próximas gerações.