Um ano depois de a direita ter conquistado a Câmara de Beja, a CDU passa-lhe uma nota negativa e fala em “enorme fracasso” face às expectativas criadas com o lema de campanha, que prometia mudar a cidade. Num comunicado dos eleitos do concelho, divulgado a seguir a um encontro na Salvada, os comunistas concluem que, “em termos globais, não se verificaram alterações que mudem ou melhorem a cidade e o concelho de Beja”.
O balanço foi feito por eleitos e ativistas da CDU nos vários órgãos autárquicos, e as críticas, todas da coligação, atingem a limpeza urbana, as intempéries, a transferência de competências para as juntas e a habitação.
É na limpeza urbana, uma das áreas em que se exigiam “melhorias consideráveis”, que a CDU aponta uma das críticas mais duras. Os eleitos acusam a coligação PSD/CDS/IL, com o apoio dos vereadores do PS e do Chega, de ter persistido na contratação de serviços externos, desta vez por dois anos e com a mesma empresa, algo que a experiência anterior, ainda na gestão do PS, já tinha mostrado não servir a cidade. Na leitura da CDU, trata-se de uma solução “mais cara, menos eficaz e com menos direitos para os trabalhadores envolvidos”.
Os comunistas vão mais longe e garantem que, para alguns serviços previstos no caderno de encargos, a Câmara “pagará três vezes pelo mesmo serviço”. A primeira vez, à respetiva junta de freguesia, que tem essas competências delegadas. A segunda, por as mesmas funções constarem do caderno de encargos da empreitada. E a terceira, aos trabalhadores da Câmara, que acabam por as executar quando as entidades anteriores não cumprem. A responsabilidade do pelouro cabe agora ao vice-presidente, e antes era do presidente.
Depois das intempéries do inverno passado, lembra a CDU, houve muitas situações a exigir intervenção rápida, tanto na reparação de caminhos como, nas localidades, na remoção de casas que ruíram, algumas para a via pública, com perigo para peões, automobilistas e habitações vizinhas. Os eleitos da CDU na Assembleia Municipal, incluindo os quatro presidentes de junta, apresentaram propostas “atempada e preventivamente”, mas, dizem, foram ignoradas. Dez meses depois, e passado o verão, que era o período mais adequado, a intervenção foi “pouco mais do que zero”.
Nos casos em que a Câmara atuou, acrescenta o comunicado, fica por explicar a prioridade, “e deixa a perceção mais que justificada” de que foi por critérios políticos e partidários.
A transferência de competências para as juntas é, na opinião da CDU, um dos maiores exemplos de “incapacidade e desinteresse” da coligação. O presidente da Câmara, lembram, conhecia bem o processo, por o ter debatido muitas vezes no mandato anterior, quando era vereador. Mesmo depois de a CDU ter apresentado propostas e uma metodologia de trabalho, o assunto foi “ostensivamente ignorado”. A lei continua por cumprir e poderá só vir a sê-lo em 2028. Os comunistas rejeitam ainda que o apoio financeiro às freguesias tenha crescido “como nunca” e concluem: “Manteve-se o encolher de ombros a que já estávamos habituados.”
Na habitação, depois de recordarem a perda de milhões de euros do PRR, da responsabilidade do anterior executivo socialista, os eleitos da CDU acusam a atual maioria de não ter dado continuidade a processos cuja maturidade era pública. Destacam a reabilitação do património habitacional da Câmara nos agrupamentos Beja I, Beja II e no Bairro João Barbeiro, além das habitações devolutas do município.
O comunicado aponta ainda um “maior afastamento” entre a responsabilidade política do executivo e a estrutura operacional, o que, na visão da CDU, torna menos eficaz a resolução dos pequenos e grandes problemas do dia a dia. Por muito empenho que haja entre os trabalhadores, a falta de acompanhamento político próximo dos responsáveis dos pelouros é “inevitavelmente” um obstáculo.
Para a CDU, as perspetivas para o resto do mandato “não serão as melhores”. E deixa um recado direto: “Uma autarquia não se gere a partir de slogans e frases mais ou menos redondas, mas vazias de conteúdo prático.” Os comunistas prometem manter uma atitude “vigilante e interventiva”, com críticas e propostas, e defendem uma Câmara que deixe de funcionar “a velocidades muito diferentes”.
Os eleitos destacam o trabalho do vereador da CDU nos pelouros que lhe foram atribuídos, que são a cultura, as acessibilidades, o turismo e o património, e o do vereador sem pelouros, que tem levado problemas e propostas às reuniões de Câmara. Querem mais presença pública ao lado dos trabalhadores e das populações e apresentam-se como alternativa, com uma política que valorize os serviços públicos e os trabalhadores, defenda a gestão pública da água, proteja o ambiente, promova os transportes públicos e coloque a cultura no centro do desenvolvimento do concelho.