A vitória da coligação “Beja Consegue”, liderada por Nuno Palma Ferro (PSD) e apoiada pelo CDS-PP e pela Iniciativa Liberal, marcou um momento histórico no concelho de Beja, mas trouxe também um dos maiores desafios políticos das últimas décadas: governar com apenas dois vereadores num executivo fragmentado.
O novo elenco camarário resulta de uma distribuição inédita: dois eleitos da coligação do PSD, dois do PS, dois do PCP e um do Chega. Um cenário que coloca sérios constrangimentos à gestão municipal. Num quadro de 2/2/2/1, e perante a necessidade de acompanhar dezassete a dezoito pelouros, a tarefa de assegurar uma governação eficaz, próxima e funcional torna-se praticamente impossível.
Consciente dessa limitação, Nuno Palma Ferro endereçou convites ao PS e ao PCP para integrarem o executivo com pelouros a tempo inteiro. A medida tem um caráter essencialmente pragmático, procurando garantir a estabilidade e a eficiência da gestão municipal.
Contudo, a política raramente se guia apenas pelo pragmatismo. O Partido Socialista de Beja já recusou o convite, sustentando que cabe à força política mais votada assumir integralmente a responsabilidade de governar. A estrutura socialista acrescentou ainda que, tendo em conta a oposição firme feita pela coligação de Nuno Palma Ferro ao anterior executivo socialista, seria incoerente agora aceitar uma aliança política com quem criticou a sua gestão.
Do lado do Partido Comunista Português, o vereador Vítor Picado afirmou à Rádio Pax que já levou o assunto à Organização Regional de Beja do seu partido. Segundo fonte junto do PCP o dilema interno é evidente: aceitar a proposta seria abrir espaço a uma experiência inédita de cooperação autárquica local, enquanto recusar poderá agravar o bloqueio político que ameaça a governabilidade do município.
Recorde-se que uma situação semelhante ocorreu há alguns anos, quando o então presidente comunista Francisco Santos garantiu maioria ao “puxar” o vereador Monge, do Partido Socialista, para o seu lado, uma decisão que gerou polémica e desgaste dentro do PCP e que resultou na derrota nas autárquicas seguintes.
Contactado pela Rádio Pax, o cabeça de lista do Chega, David Catita, confirmou ter sido abordado por Nuno Palma Ferro, no dia seguinte às eleições, com um convite para integrar a gestão camarária. No entanto, adiantou que não pretende aceitá-lo enquanto não tiver garantias claras sobre as condições e a forma como, na prática, esse trabalho seria desenvolvido.