A aldeia de Cabeça Gorda, no concelho de Beja, despertou ontem entre o silêncio ainda nocturno e a “balbúrdia” provocada pela operação policial que, durante a madrugada, desmantelou uma rede criminosa de auxílio à imigração ilegal. A rotina foi quebrada por portas arrombadas, movimentações inesperadas e a presença intensa das autoridades.
No café Sol Nascente, situado na rua principal, os vizinhos foram-se juntando ao longo da manhã para tentar perceber o que aconteceu. O estabelecimento, apontado como um dos locais onde a Polícia Judiciária efetuou detenções no âmbito da operação “Safra Justa”, apresentava vidros no chão e a porta partida, sinais visíveis da intervenção policial. Segundo moradores, era um espaço “muito frequentado por imigrantes”, tal como a casa vizinha, usada para albergar vários trabalhadores.
Uma das moradoras, que prefere não ser identificada, contava que o café tinha fechado repentinamente há alguns dias e que se comentava existir uma dívida, mas que “tudo parecia estranho”. Ontem, familiares do proprietário tentavam limpar destroços e fechar a casa, evitando qualquer contacto com a população.
A poucos metros dali, a aldeia continuava a fervilhar de comentários. Mais abaixo, num antigo lar ilegal, também se realizaram buscas.
A operação “Safra Justa”, conduzida pela Unidade Nacional Contra Terrorismo da PJ e dirigida pelo DCIAP, resultou em 17 detenções, incluindo 10 militares da GNR, um agente da PSP e seis civis. No total, foram cumpridos cerca de 50 mandados de busca nos distritos de Beja, Portalegre, Figueira da Foz e Porto.
Segundo o Ministério Público, os detidos terão aproveitado a vulnerabilidade documental, social e económica de trabalhadores estrangeiros, muitos deles indocumentados, para obter “avultadas vantagens económicas”. Em causa estão crimes de auxílio à imigração ilegal, tráfico de pessoas, corrupção ativa e passiva, abuso de poder, além de falsificação, fraude fiscal e branqueamento de capitais.
A pequena aldeia de Cabeça Gorda, habitualmente tranquila, tornou-se ontem palco de um dos maiores golpes recentes ao circuito clandestino de exploração de imigrantes em Portugal.