A salinização da Ribeira do Roxo ganha um novo motivo de preocupação em Aljustrel. Depois de um estudo internacional ter identificado um aumento de 225% da condutividade elétrica da água face aos níveis naturais, classificando a sub-bacia do Roxo como um caso de salinização severa, surgem agora relatos de uma acumulação invulgar de cristais junto às margens da Albufeira do Roxo.
A situação foi comunicada à Rádio Pax por Sónia Santana Sacramento, observadora de aves no Projeto Alentejo – Aldeia Amiga das Andorinhas, que acompanha regularmente a zona da albufeira.
Segundo o relato, durante uma das suas observações, a responsável detetou uma grande acumulação de material que aparenta ser sal, formando aquilo que descreve como grandes “pepitas” junto à margem.
Quando foi inicialmente observada, a acumulação teria uma dimensão aproximada de três metros de comprimento por 95 centímetros de largura, chegando a atingir cerca de 30 centímetros de altura no ponto de maior concentração.
Atualmente, a quantidade de material será menor, mas ainda permanece visível no local.
Um dos aspetos que mais chamou a atenção da observadora foi o facto de algumas pessoas terem, entretanto, deslocado-se à zona para recolher aquele material.
Sónia Santana Sacramento sublinha, contudo, que não sabe qual é a composição dos cristais e não estabelece qualquer relação direta entre esta ocorrência e a salinização da Ribeira do Roxo. A observadora pretende apenas que a situação seja verificada e, eventualmente, que o material seja analisado.
O alerta surge numa altura particularmente sensível para o território.
Um estudo internacional coordenado pelo Centro Comum de Investigação da Comissão Europeia revelou que a condutividade elétrica da água na Ribeira do Roxo aumentou 225% relativamente aos níveis naturais. O trabalho, publicado na revista científica Nature Communications, analisou rios de 35 países europeus e concluiu que cerca de metade da rede fluvial do continente apresenta sinais de salinização.
No caso do Roxo, o aumento colocou a sub-bacia, que inclui a barragem, na categoria de salinização severa.
O excesso de sais pode provocar impactos na biodiversidade e nos habitats aquáticos e representar riscos para diferentes utilizações da água, nomeadamente agricultura, indústria e abastecimento.
Na bacia do Sado foi identificado igualmente um aumento significativo, de 88%, enquanto em Alcanena a subida chegou aos 116%.
Os investigadores apontam para uma combinação de fatores naturais e pressão humana, incluindo alterações no uso do solo, agricultura e outras atividades com impacto nos recursos hídricos. O estudo, contudo, não atribui a responsabilidade pela salinização a qualquer exploração ou atividade económica específica na zona do Roxo.
Perante a nova observação na Albufeira do Roxo, fica agora uma questão no ar: o que é, afinal, o material cristalizado que está a ser encontrado junto à margem?
A resposta só poderá ser dada através de uma análise no local e, sobretudo, de uma análise laboratorial da sua composição.
Para a observadora que comunicou a situação, o objetivo é precisamente esse: que o fenómeno seja investigado, numa altura em que a salinização do Roxo já está identificada pela comunidade científica como um dos casos preocupantes em Portugal.
A Comissão Europeia tem defendido um maior acompanhamento deste fenómeno, considerando que a salinização dos rios continua a ser uma realidade insuficientemente monitorizada e que exige novas medidas de gestão e proteção dos recursos hídricos.
Fotos: Sónia Santana Sacramento


