Novos relatos de alegada negligência estão a surgir em torno do Lar do Monte, em Beja, pertencente à Fundação São Barnabé.
Depois do caso noticiado pela Rádio Pax na passada segunda-feira, em que o filho de uma utente de 96 anos acusou a instituição de ter retirado a mãe do lar sem qualquer motivo, surgem agora novas denúncias.
O mais recente testemunho é de Margarida Amador, advogada e filha de uma antiga utente do Lar do Monte.
A mulher, de 86 anos, entrou na instituição a 8 de dezembro de 2022. Segundo Margarida Amador, nessa altura, a direção técnica estava a cargo de Conceição Faustino.
A advogada recorda um episódio que, segundo afirma, terá provocado alterações na estrutura da instituição.
Relata o caso de uma utente que teria feridas graves e que, alegadamente, não terá recebido os cuidados necessários.
Segundo Margarida Amador, a mulher acabou por ser encaminhada para o hospital, onde lhe terá sido amputada uma perna, vindo posteriormente a falecer.
A partir daí, diz, a situação no lar terá piorado com a vinda de outra directora técnica.
Uma das principais preocupações apontadas pela advogada está relacionada com a medicação da mãe, que sofria de problemas renais.
Margarida Amador afirma que a mãe começou a apresentar sinais de retenção de líquidos e que, depois de uma ida ao hospital, recebeu indicações médicas rigorosas relativamente à administração de um medicamento diurético.
Segundo o seu relato, apesar das recomendações médicas, a medicação terá começado a falhar em determinadas alturas do dia.
A própria mãe, conta, começou a alertá-la de que não estava a receber o medicamento à hora do lanche.
Margarida Amador diz ter transmitido a situação à assistente social responsável pelo acompanhamento, mas afirma que a resposta que recebeu foi de que não haveria problema em adiar a toma.
A advogada garante, no entanto, que as recomendações médicas eram claras e que o medicamento não deveria ser administrado à noite, devido às dificuldades de mobilidade da mãe e ao risco de esta ter de se levantar durante a madrugada para ir à casa de banho.
A partir desse momento, Margarida Amador diz ter começado a acompanhar ainda mais de perto a situação.
A advogada afirma ter tomado conhecimento de outras alegadas falhas, incluindo situações relacionadas com a medicação dos utentes.
O conflito entre a família e a instituição terá culminado em agosto de 2024.
Margarida Amador afirma que recebeu um telefonema a informar que a mãe teria de abandonar o lar.
Segundo a advogada, inicialmente foi-lhe comunicado que teria cerca de duas semanas para retirar a mãe da instituição. O prazo terminaria a 8 de setembro.
A filha da utente diz ter ficado surpreendida com a decisão e afirma que recebeu posteriormente um e-mail com os fundamentos apresentados pela instituição.
De acordo com Margarida Amador, nesse documento, a mãe, de 86 anos, era acusada de tratar mal as funcionárias e a própria filha de ter comportamentos inadequados para com trabalhadores do lar.
A advogada contesta essas acusações e considera que as razões apresentadas pela instituição “não fazem qualquer sentido nem correspondem à realidade”.
Margarida Amador afirma ainda que, caso não fosse buscar a mãe, a instituição encontraria uma solução para a levar até à sua residência, ficando as despesas a seu cargo.
A mulher diz ter confrontado a direção e questionado os motivos apresentados.
No dia 8 de setembro, acabou por retirar a mãe, de 86 anos, do Lar do Monte e conseguiu colocá-la noutra instituição, onde permanece atualmente.
Margarida Amador admite, no entanto, que teve sorte por ter encontrado uma alternativa.
A advogada estabelece ainda um paralelismo entre o seu caso e o de Alfredo Riscado, cujo relato foi noticiado anteriormente pela Rádio Pax.
Segundo Margarida Amador, as cartas enviadas às famílias apresentam semelhanças significativas, levando-a a suspeitar da existência de uma minuta utilizada pela instituição, com alterações pontuais consoante cada caso.
Estas são, para já, alegações feitas por familiares de antigos ou atuais utentes do Lar do Monte.
A Rádio Pax continuará a acompanhar estes casos e procurará ouvir a Fundação São Barnabé e a direção do Lar do Monte sobre as denúncias apresentadas, assegurando à instituição o direito ao contraditório e a oportunidade de apresentar a sua versão dos factos.
Nesse sentido, foi ontem enviado um e-mail à instituição com um conjunto de questões relacionadas com os casos relatados. Reproduzimos, de seguida, o conteúdo desse e-mail na íntegra:
Exmos. Senhores,
A Rádio Pax está a preparar uma notícia sobre novas denúncias relacionadas com o funcionamento do Lar do Monte, em Beja, pertencente à Fundação São Barnabé.
Na sequência de um primeiro caso noticiado pela Rádio Pax na passada segunda-feira, envolvendo as acusações apresentadas por um familiar de uma utente de 96 anos, surgiram entretanto novos testemunhos de familiares de antigos e atuais utentes da instituição, que relatam alegadas falhas nos cuidados prestados, nomeadamente no acompanhamento da medicação, bem como situações relacionadas com a saída de utentes do lar.
Entre os relatos recolhidos encontra-se o de Margarida Amador, advogada e filha de uma antiga utente do Lar do Monte, que levanta questões relacionadas com a administração de medicação à sua mãe, bem como com o processo que terá conduzido à saída da utente da instituição, em setembro de 2024.
A Rádio Pax pretende assegurar o direito ao contraditório e dar à Fundação São Barnabé e à direção do Lar do Monte a oportunidade de esclarecer estas alegações e apresentar a sua versão dos factos.
Nesse sentido, agradecemos resposta às seguintes questões:
A instituição confirma ou desmente que tenham ocorrido situações em que medicamentos tenham sido administrados fora do horário definido nas prescrições médicas?
No caso concreto relatado por Margarida Amador, a instituição confirma que a mãe da advogada tinha uma prescrição para tomar um medicamento diurético a determinada hora e que essa toma terá sido alterada ou adiada?
No caso da mãe de Margarida Amador, a instituição confirma que comunicou à família que a utente teria de abandonar o Lar do Monte?
Quais foram, concretamente, os motivos que levaram a essa decisão?
A instituição confirma que, caso a família não retirasse a utente dentro do prazo indicado, poderia proceder ao seu transporte para a residência, com os custos a cargo da família?
Quantos utentes foram convidados ou obrigados a abandonar o Lar do Monte nos últimos três anos e quais foram, de forma geral, os motivos dessas decisões?
Agradecemos uma resposta com a maior brevidade possível.
Com os melhores cumprimentos,
Rádio Pax








