O debate em torno do Alqueva voltou a expor uma fratura recorrente no discurso público português: a distância entre algumas associações ambientalistas e a realidade concreta das regiões do interior. As recentes posições da Quercus, agora criticadas pela Associação de Beneficiários e Proprietários do Alqueva, são mais um exemplo de um ambientalismo que, muitas vezes, se constrói em gabinetes urbanos, longe do território que diz defender.
Não está em causa a importância da defesa do ambiente. Essa é uma causa legítima, necessária e transversal. O problema surge quando o discurso ambientalista se transforma em alarmismo, ignora dados técnicos, despreza decisões sustentadas em estudos científicos e, sobretudo, desvaloriza o impacto social e económico de projetos estruturantes para regiões historicamente esquecidas pelo poder central.
O Alqueva não é um capricho nem uma experiência inconsequente. É um projeto de interesse público que transformou profundamente o Alentejo. Onde antes havia escassez crónica de água, abandono agrícola e perda contínua de população, existe hoje uma reserva estratégica essencial, capaz de garantir abastecimento humano, segurança hídrica em períodos de seca extrema e uma base sólida para a atividade económica.
As acusações de que o regadio coloca em causa o consumo humano revelam, no mínimo, desconhecimento da legislação em vigor. A lei é clara: o abastecimento público tem prioridade absoluta. Aliás, o recente reforço de água para uso urbano demonstra precisamente o contrário do que alguns tentam insinuar.
Outro equívoco recorrente é a demonização do regadio moderno. Persistir na ideia de que toda a agricultura irrigada é ambientalmente danosa é ignorar décadas de evolução tecnológica. A agricultura de precisão, hoje amplamente utilizada no perímetro de Alqueva, permite uma gestão eficiente da água, reduz desperdícios, protege os solos e contribui para a adaptação às alterações climáticas. Mais do que isso, cria emprego, fixa população e combate dois dos maiores flagelos do interior: a desertificação humana e económica.
Há ainda uma contradição difícil de justificar. Muitos dos que se opõem sistematicamente ao desenvolvimento agrícola nacional são os mesmos que defendem modelos de sustentabilidade assentes na redução da dependência externa. Ora, sem produção interna, não há soberania alimentar. O Alqueva tem permitido diversificar culturas, aumentar a produção nacional e reduzir importações, um objetivo estratégico que deveria merecer consenso, não contestação permanente.
Também do ponto de vista ambiental, o discurso alarmista ignora que a gestão do empreendimento assenta em estudos científicos rigorosos, conduzidos por entidades como a EDIA e a Agência Portuguesa do Ambiente. Não se trata de decisões arbitrárias, mas de opções sustentadas, avaliadas e monitorizadas, com impacto positivo na proteção dos solos, na biodiversidade e na resiliência do território.
O que verdadeiramente preocupa é a tendência para criar clivagens artificiais: agricultores contra ambientalistas, desenvolvimento contra ambiente, interior contra litoral. Essa lógica não serve ninguém. Muito menos as populações do Alentejo, que durante décadas ouviram promessas vazias enquanto viam partir os seus jovens e fechar serviços essenciais.
Criticar é legítimo. Bloquear sistematicamente, sem conhecer o terreno, sem ouvir quem lá vive e trabalha, e sem apresentar alternativas viáveis, é irresponsável. Um país que quer ser coeso, sustentável e socialmente justo não pode continuar refém de posições dogmáticas que tratam o interior como um museu intocável.
O Alqueva é, com todas as imperfeições naturais de qualquer grande projeto, um exemplo de como é possível conciliar crescimento económico, coesão social e proteção ambiental. Persistir num ambientalismo de obstáculo, desligado da realidade e das pessoas, é condenar regiões inteiras à estagnação. E isso, sim, é um custo que o país não pode continuar a pagar.