Há 90 anos, quando milhares de espanhóis fugiam da violência e da perseguição provocadas pela Guerra Civil, a fronteira não foi apenas uma linha a separar dois países. Em Barrancos tornou-se também uma porta para a esperança. Este sábado, o concelho regressa a uma das páginas mais marcantes da sua história para homenagear quem acolheu centenas de refugiados e lançar um novo desafio: conquistar para a Herdade da Coitadinha a Marca do Património Europeu.
A celebração dos 90 anos do Campo de Refugiados de Barrancos, na Herdade da Coitadinha, pretende recuperar a memória dos acontecimentos de 1936 e transmiti-la às novas gerações.
Durante a Guerra Civil de Espanha, entre 1936 e 1939, milhares de pessoas abandonaram as suas casas para escapar ao conflito e à perseguição. A proximidade da fronteira colocou Barrancos na rota de centenas de refugiados que procuraram proteção em Portugal.
Num período marcado pelo medo e pela incerteza, a população local ficou associada a uma resposta de acolhimento e solidariedade que permanece como parte da memória histórica do concelho.
Esse comportamento viria também a ser reconhecido do outro lado da fronteira. Em 2009, o povo de Barrancos recebeu a Medalha da Extremadura, como reconhecimento pelo auxílio prestado aos refugiados espanhóis.
Agora, nove décadas depois, a história volta a reunir portugueses e espanhóis.
Durante as comemorações deste sábado será apresentada oficialmente a Associação Hispano-Lusa “La Ruta de los Refugiados”, criada para preservar e divulgar a memória e o património associados à passagem e permanência dos refugiados em Barrancos.
Mas um dos momentos de maior significado está reservado para o encerramento.
O Município de Barrancos, em parceria com a EDIA e com o apoio da CCDR Alentejo, vai apresentar a candidatura do Campo de Refugiados da Herdade da Coitadinha à Marca do Património Europeu.
A distinção europeia procura reconhecer lugares com particular significado para a história e para a construção da Europa, promovendo simultaneamente a preservação e a transmissão desse património às gerações futuras.
A cerimónia contará com a presença do secretário de Estado da Cultura, Alberto Santos.
Para Barrancos, a candidatura pretende dar uma dimensão europeia a uma memória profundamente ligada à própria identidade da terra: a de uma população fronteiriça que, perante pessoas que fugiam de uma guerra, escolheu acolher.
Noventa anos depois, a Herdade da Coitadinha deixa de ser apenas um lugar onde se recorda o passado. Barrancos quer transformar essa memória num património para o futuro e colocar no mapa europeu uma história escrita, não por exércitos ou batalhas, mas por gestos de humanidade num dos períodos mais negros da Península Ibérica.