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Enquanto Portugal arde, a política vai à bola

Enquanto Portugal arde, a política vai à bola

Portugal tem uma relação estranha com os incêndios florestais. Todos os anos repetimos o mesmo ciclo. Chegam os dias de calor. Multiplicam-se os alertas. Surgem os primeiros fogos. Fazem-se conferências de imprensa. Prometem-se medidas. Criam-se comissões de inquérito. Elaboram-se relatórios. Depois, o inverno chega, o tema desaparece da agenda política e mediática e tudo fica adiado para o verão seguinte.

O mais preocupante é que os incêndios deixaram há muito de ser um fenómeno imprevisível. Os meteorologistas alertam com meses de antecedência para as condições favoráveis. A Proteção Civil, os bombeiros, os investigadores e os especialistas repetem, ano após ano, os mesmos avisos: há excesso de combustível nas florestas, falta gestão do território, persistem problemas estruturais e o investimento continua demasiado concentrado no combate, em vez da prevenção. Apesar disso, vem sempre um governante afirmar publicamente: “ninguém podia prever isto.”

Há uma imagem que resume bem as prioridades do país: um bombeiro voluntário recebe 2,86 euros por hora para enfrentar as chamas, enquanto um relatório sobre a falta de bombeiros pode custar dezenas de milhares de euros. Os estudos são necessários, mas não apagam incêndios. Quem está na linha da frente continua a receber uma compensação que pouco reflete o risco, a responsabilidade e o serviço prestado à comunidade.

Outra questão recorrente prende-se com os interesses económicos que gravitam em torno da floresta. O debate sobre a expansão do eucalipto, a gestão da propriedade florestal e o peso de setores como a indústria da madeira ou das empresas de meios aéreos não é novo. Há décadas que se fala da influência destes interesses nas decisões políticas e nas opções de gestão do território. No entanto, apesar de sucessivas denúncias e suspeitas levantadas no espaço público, raramente se avança para investigações aprofundadas ou para reformas estruturais. A discussão reacende-se sempre que o país arde, mas acaba por desaparecer com as primeiras chuvas, adiando, mais uma vez, as respostas que o problema exige.

Todos os anos o país volta a arder e nós voltamos a assistir ao mesmo guião: surpresa, promessas e explicações. Como se os incêndios fossem inevitáveis e a falta de preparação uma fatalidade. Não são. O que verdadeiramente preocupa é a normalização desta sucessão de falhas. E quando o país enfrenta dias de risco extremo, espera-se que os seus responsáveis políticos transmitam uma imagem de liderança e de total disponibilidade. Por isso, é legítimo questionar as prioridades quando o Primeiro-Ministro mantém a agenda para assistir a eventos desportivos enquanto várias regiões do país enfrentam incêndios de grande dimensão.

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Farmácia de serviço hoje na cidade de Beja

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