O Alqueva transformou a agricultura do Baixo Alentejo, atraiu investimento e abriu novas oportunidades de negócio. Mas o desenvolvimento económico não foi suficiente para travar a perda de habitantes nem para garantir que a riqueza criada chega de forma equilibrada às populações.
Esta é a principal questão levantada por uma investigação de académicos ligados às universidades de Évora e de Lisboa, que analisa os efeitos económicos, sociais e ambientais do empreendimento de Alqueva.
O trabalho reconhece a importância da barragem e do regadio na modernização agrícola, mas questiona a distribuição dos benefícios gerados por um dos maiores investimentos públicos realizados no Alentejo.
A expansão das culturas intensivas, a valorização dos terrenos e o crescimento das exportações contrastam com problemas que persistem na região, como o envelhecimento da população, as dificuldades de acesso à habitação e a desigualdade económica.
Os investigadores chamam também a atenção para as condições de trabalho na agricultura, para a dependência de mão de obra sazonal e migrante e para os riscos ambientais associados à intensificação da produção.
Um dos dados mais expressivos está na evolução demográfica. Entre 2001 e 2021, o Alentejo perdeu 67 mil e 552 habitantes, o equivalente a 12,6% da população considerada no estudo.
Nas freguesias junto à albufeira, a quebra foi ainda mais acentuada, atingindo os 26,2%. Na freguesia da Luz, no concelho de Mourão, a redução chegou aos 32,3%.
O estudo, publicado na revista científica Sustainability, é assinado por Carlos Gonçalves, da Universidade de Évora, e Jorge Gonçalves, do Instituto Superior Técnico, da Universidade de Lisboa.
Os autores reconhecem que Alqueva cumpriu objetivos importantes, nomeadamente no abastecimento de água, no aumento da produção agrícola, nas exportações e na dinamização do turismo e das energias renováveis.
Contudo, defendem que estes resultados não foram acompanhados por melhorias sociais da mesma dimensão.
A investigação aponta ainda para uma crescente concentração da propriedade agrícola em grandes explorações e para uma distribuição desigual dos benefícios económicos.
No plano ambiental, os investigadores alertam para as pressões exercidas pelas culturas intensivas sobre os solos, a água e a biodiversidade.
A principal conclusão é que o crescimento da economia, por si só, não garante o desenvolvimento das comunidades.
Os autores defendem políticas que permitam reter mais riqueza na região, melhorar as condições de trabalho, reforçar os serviços públicos e criar oportunidades para fixar população.
O estudo não coloca em causa a importância estratégica do Alqueva. Questiona, sobretudo, a capacidade de transformar os ganhos económicos em melhores condições de vida para os habitantes do Alentejo.