Há uma luz ao fundo do túnel na Santa Casa de Serpa: nova equipa prepara-se para tentar salvar a instituição

A crise da Santa Casa da Misericórdia de Serpa pode estar a entrar numa nova fase. A Rádio Pax sabe que está a ser preparada uma lista candidata à direção da instituição. A candidatura será apresentada aos irmãos numa Assembleia Geral marcada para 27 de agosto.

Esta candidatura surge depois da demissão em bloco da Mesa Administrativa, na sequência da rejeição, em Assembleia Geral, da proposta de parceria com o Grupo LA Health. A proposta foi chumbada por 55 votos contra e 24 a favor, numa votação secreta que terminou já perto das 23 horas.

A então provedora, Maria Isabel Estevens, apresentou posteriormente a demissão, mas fez questão de esclarecer que a sua saída não resultou apenas do chumbo da proposta. Segundo explicou na altura, o problema esteve na falta de condições para evitar que a proposta fosse rejeitada. Na sua perspetiva, a Assembleia Geral poderia ter permitido melhorar os contratos e introduzir alterações sugeridas pelos irmãos, mas essas alterações não chegaram a ser concretizadas e, depois da votação, já seria demasiado tarde.

Maria Isabel Estevens deixou ainda uma declaração particularmente significativa: uma administração precisa de apoio e de trabalho em rede, sobretudo quando atravessa um dos períodos mais difíceis da instituição. A antiga provedora considerou que as provas que foi recebendo demonstravam que esse apoio não existiu ao longo dos tempos.

É neste contexto que a Santa Casa procura agora uma nova solução para uma crise que está longe de ser recente. A instituição tem acumulado problemas financeiros, laborais e relacionados com a prestação de cuidados de saúde. O processo de viabilização apresentado em março de 2025 identificou uma dívida de 5 milhões, 788 mil euros, envolvendo inicialmente vários credores e, posteriormente, uma lista provisória com 234 credores.

Entre eles estão instituições financeiras, a Segurança Social, a União das Misericórdias Portuguesas e a Unidade Local de Saúde do Baixo Alentejo.

Mas a dimensão da crise percebe-se também pelos trabalhadores. Ao longo dos últimos anos foram denunciados atrasos no pagamento de salários, subsídios e retroativos. Em 2025, mais de uma centena de trabalhadores reclamava valores referentes a subsídios e atualizações salariais. Já em junho deste ano, segundo a CGTP, continuavam por pagar subsídios de Natal de 2024 e 2025, retroativos salariais desde novembro de 2022 e, entretanto, o subsídio de férias de 2026.

A crise financeira tem uma ligação direta à área da saúde e, sobretudo, ao Hospital de São Paulo. Em setembro de 2023, o Serviço de Atendimento Permanente chegou a ser encerrado, sendo apontada a situação económica da Santa Casa como uma das razões para a dificuldade em garantir médicos.

Entretanto, foi construída uma nova Unidade Médico-Cirúrgica, num investimento de cerca de 3,7 milhões de euros. O projeto pretendia permitir entre 2.500 e 3.000 cirurgias por ano, além de consultas, exames e outras valências. O problema é que a atividade não atingiu os níveis inicialmente previstos, deixando uma infraestrutura de grande dimensão associada a custos elevados e sem a receita esperada.

Em janeiro de 2024, a União das Misericórdias Portuguesas assumiu a gestão do Hospital de São Paulo, numa tentativa de encontrar uma solução mais profissionalizada para a área da saúde. A experiência, contudo, acabou por não resultar. Em março de 2025, a UMP decidiu abandonar a gestão.

O presidente da União das Misericórdias Portuguesas, Manuel de Lemos, foi então claro ao afirmar que “não havia condições” para manter o protocolo perante a situação financeira da Santa Casa de Serpa.

A gestão do hospital regressou, assim, à Misericórdia de Serpa.

É neste quadro de fragilidade financeira que surgiu, este ano, a proposta do Grupo LA Health. O projeto previa dois contratos: um para a gestão partilhada da Estrutura Residencial para Pessoas Idosas e da Unidade de Cuidados Continuados Integrados e outro relacionado com consultoria e mediação na área da saúde.

A proposta provocou forte contestação sindical. O Sindicato dos Trabalhadores em Funções Públicas e Sociais considerou que a operação poderia ser “altamente vantajosa para o parceiro privado e potencialmente ruinosa para a SCMS”, defendendo que a Misericórdia continuaria a suportar grande parte dos riscos financeiros e laborais, enquanto perderia capacidade efetiva de decisão.

Os irmãos acabaram por rejeitar a solução.

Depois da votação, o presidente da Câmara Municipal de Serpa, Francisco Picareta, considerou o resultado um “sinal inequívoco da necessidade de encontrar um novo caminho” para a instituição. A autarquia pediu reuniões ao Bispo de Beja, à União das Misericórdias Portuguesas, ao presidente da Assembleia Geral da Santa Casa e aos trabalhadores, defendendo uma solução estruturada, estável e duradoura.

Também a Diocese de Beja tem acompanhado o processo. Em junho, o bispo D. Fernando Paiva tornou pública a preocupação da Diocese e revelou contactos com os órgãos da Misericórdia, a Câmara de Serpa, a UMP, a Segurança Social e outros parceiros. Estavam igualmente a ser analisadas manifestações de interesse de grupos hospitalares para possíveis parcerias.

E a crise já ultrapassou claramente as paredes da instituição. A Santa Casa assegura ou está ligada a respostas como o Hospital de São Paulo, cuidados continuados, o Lar de São Francisco e outras valências sociais, tendo chegado a prestar respostas a cerca de 800 utentes por mês e a empregar aproximadamente 180 trabalhadores.

Ou seja, não está em causa apenas o futuro de uma instituição. Está em causa uma estrutura com um peso social, económico, laboral e de saúde muito significativo no concelho de Serpa.

A crise, aliás, já era conhecida muito antes da Mesa Administrativa cessante. Em 2022 chegaram ao Parlamento denúncias sobre salários pagos fora de prazo. Em 2023, o então secretário de Estado da Saúde, Ricardo Mestre, reconhecia que a Segurança Social estava a analisar a situação financeira da Misericórdia e as necessidades para garantir a sua sustentabilidade.

O PCP tem defendido que o Hospital de São Paulo deve regressar ao Serviço Nacional de Saúde, considerando que o modelo seguido não conseguiu garantir uma resposta estável. Também o Movimento em Defesa do Hospital de São Paulo defende a integração da unidade no SNS.

Agora, perante uma Mesa Administrativa demissionária e uma nova candidatura em preparação, abre-se uma nova etapa.

A próxima direcção irá tentar virar a página de uma das maiores crises institucionais vividas pela Misericórdia de Serpa. No entanto, terá pela frente uma dívida de quase 5,8 milhões de euros, centenas de credores, problemas laborais, uma estrutura de saúde com dificuldades de sustentabilidade e decisões estratégicas que continuam por resolver.

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Farmácia de serviço hoje na cidade de Beja

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