Marcelo Guerreiro estreia-se na liderança do PS com críticas aos atrasos do Governo

O Partido Socialista do Baixo Alentejo concluiu o seu processo eleitoral interno com a realização do XXII Congresso Federativo, que decorreu no passado domingo, em Serpa, sob o lema “O Baixo Alentejo é Futuro”. Do congresso saiu uma nova liderança, agora presidida por Marcelo Guerreiro, que assume a responsabilidade de conduzir a Federação Distrital nos próximos anos.

Para conhecer as prioridades desta nova direção, os desafios do partido no distrito e a visão para o futuro do Baixo Alentejo, a Rádio Pax convidou Marcelo Guerreiro para uma entrevista.

É uma conversa que apresentamos na íntegra:

Assumiu a liderança da Federação do PS do Baixo Alentejo prometendo uma oposição “responsável, mas firme”. Na prática, o que é que isso significa perante o atual Governo?

Significa que não faremos oposição por oposição. Sempre que o Governo tomar decisões positivas para o Baixo Alentejo, saberemos reconhecê-las e contribuir para que sejam concretizadas. Mas também significa que não aceitaremos anúncios sem calendário, compromissos sem financiamento ou decisões que deixem novamente a região para trás.

Seremos responsáveis porque o interesse do Baixo Alentejo está acima da disputa partidária. E seremos firmes porque quem governa tem a obrigação de responder pelos compromissos assumidos, pela execução dos investimentos e pela qualidade dos serviços públicos.

O nosso critério será simples: menos propaganda e mais concretização. Não avaliaremos o Governo pelas intenções, mas pelos resultados que chegam à vida das pessoas.

Disse que o Baixo Alentejo “dá muito ao país e recebe pouco em troca”. Quais são, neste momento, as três medidas mais urgentes que espera ver concretizadas pelo Governo?

Em primeiro lugar, a ferrovia: avançar efetivamente com a modernização e eletrificação da ligação Casa Branca–Beja e assumir a reabertura e eletrificação da ligação entre Beja e a Funcheira. A ferrovia é essencial para aproximar pessoas, melhorar a mobilidade, aumentar a competitividade da região e ligar o Baixo Alentejo aos principais corredores nacionais.

Em segundo lugar, a saúde: avançar sem mais demoras com a ampliação e requalificação do Hospital de Beja e garantir o financiamento integral das intervenções previstas nos cuidados de saúde primários.

Em terceiro lugar, as acessibilidades rodoviárias: concretizar uma ligação eficiente entre Beja e a A2, com projeto, financiamento, calendário e execução. A região já ouviu demasiados anúncios e precisa agora de decisões que se traduzam em obra.

Estas três prioridades têm algo em comum: aproximam as pessoas dos serviços e das oportunidades e criam melhores condições para viver, trabalhar e investir no Baixo Alentejo.

A ferrovia voltou a ser uma das suas principais bandeiras. Considera que o atraso na modernização da ligação Casa Branca–Beja resulta de falta de vontade política ou de incapacidade dos sucessivos governos?

Resulta, sobretudo, de uma incapacidade continuada do Estado para transformar decisões e compromissos em obra dentro de prazos razoáveis.

Este investimento é discutido há vários anos. O território foi ouvindo sucessivos anúncios, calendários e promessas, mas a realidade é que continuamos sem a ferrovia moderna de que a região precisa.

Não ignoro que estes processos são tecnicamente exigentes e que envolvem projetos, avaliações, concursos e financiamento. Mas não é aceitável que uma infraestrutura estruturante para a coesão territorial continue permanentemente adiada.

O problema já não é saber quem anunciou primeiro ou quem concluiu determinada fase administrativa. O problema é que as populações continuam sem uma ligação ferroviária moderna, rápida e competitiva.

Por isso, exigimos projeto, financiamento assegurado, procedimento lançado e um calendário público de execução.

E não desistiremos da ligação entre Beja e a Funcheira. A modernização ferroviária não pode terminar em Beja e deixar uma parte significativa da região fora desta solução.

Na saúde, alertou para o atraso na ampliação do Hospital de Beja e para o financiamento das obras em vários centros de saúde. Que consequências estão estas demoras a ter para as populações do distrito?

As consequências são muito concretas. Instalações desadequadas condicionam o trabalho dos profissionais, dificultam a organização dos serviços, limitam a resposta assistencial e tornam mais difícil atrair e fixar médicos, enfermeiros e técnicos.

No caso do Hospital de Beja, há mais de dois anos que se sucedem anúncios relativamente ao processo de ampliação e requalificação. A decisão de iniciar esse caminho foi tomada ainda durante o Governo do Partido Socialista, mas, desde então, não foi dado nenhum passo efetivo que permita perceber quando é que a obra avançará verdadeiramente.

O que falta já não é reconhecer a necessidade da intervenção. Essa necessidade está identificada há muito. O que falta é passar da decisão à execução, com projeto, financiamento assegurado, procedimento lançado e calendário público.

Enquanto isso não acontece, a população continua dependente de um hospital com limitações físicas e funcionais conhecidas, e os profissionais continuam a trabalhar em condições que não correspondem às exigências de uma resposta de saúde moderna.

Nos cuidados de saúde primários, os atrasos têm igualmente consequências sérias: centros e extensões de saúde com condições insuficientes, municípios chamados a suportar encargos que deveriam estar devidamente financiados e populações que continuam à espera de respostas de proximidade.

A saúde no interior não pode viver de anúncios sucessivos. Precisa de decisões executadas, obras concretizadas, profissionais fixados e serviços capazes de responder com dignidade às populações.

Sobre a ligação entre Beja e a A2, afirmou que o PS “não confunde anúncio com obra”. Que garantias concretas exige ao Governo para acreditar que este projeto vai mesmo avançar?

Exigimos garantias muito simples: uma solução técnica definida, projeto, financiamento inscrito, procedimento concursal lançado e um calendário de execução publicamente assumido.

Enquanto isso não existir, estamos perante uma intenção política e não perante uma obra.

O Baixo Alentejo já ouviu demasiados anúncios ao longo de décadas. Por isso, não basta apresentar mapas ou declarar prioridades. É preciso explicar qual será a solução, qual o investimento, de onde vem o financiamento, quando começa a obra e quando ficará concluída.

O Partido Socialista estará disponível para contribuir para uma solução séria. Mas será igualmente exigente na fiscalização dos compromissos.

A região precisa de acessibilidades que reduzam os tempos de viagem, aumentem a segurança rodoviária, apoiem as empresas e aproximem Beja e todo o Baixo Alentejo dos principais eixos nacionais.

A falta de habitação está a dificultar a fixação de jovens e de profissionais essenciais. Que soluções defende para inverter esta realidade no Baixo Alentejo?

A habitação deve ser tratada como uma política de desenvolvimento regional e não apenas como uma resposta social.

Defendo um programa específico para os territórios de baixa densidade, assente na reabilitação de património público e privado devoluto, na construção de habitação para arrendamento acessível e no apoio aos municípios para criarem soluções destinadas a jovens, famílias e profissionais essenciais.

É também necessário facilitar a mobilização de imóveis devolutos, simplificar os processos de reabilitação e criar incentivos para quem coloque casas no mercado de arrendamento permanente.

Nos territórios do interior, deve existir ainda uma política articulada de habitação para médicos, enfermeiros, professores, forças de segurança e outros profissionais fundamentais ao funcionamento dos serviços públicos.

Sem habitação, as empresas não conseguem contratar, os serviços públicos não conseguem fixar profissionais e os jovens não conseguem iniciar os seus projetos de vida.

Por isso, resolver o problema da habitação é também criar emprego, proteger os serviços públicos, atrair população e combater a perda demográfica.

Referiu que a degradação dos serviços públicos alimenta o crescimento do populismo. Acredita que os partidos tradicionais falharam na resposta aos problemas do interior do país?

Temos de reconhecer que, em muitos momentos, o sistema político não respondeu com a rapidez e a eficácia necessárias aos problemas do interior.

Quando uma pessoa espera demasiado por uma consulta, percorre dezenas de quilómetros para aceder a um serviço, não encontra transporte público ou sente que o Estado está cada vez mais distante, cria-se terreno para a desconfiança e para a revolta.

Mas reconhecer falhas não significa aceitar a narrativa de que todos os partidos são iguais ou de que a democracia não funciona. Pelo contrário, significa exigir que a democracia funcione melhor.

O populismo cresce quando transforma problemas reais em soluções falsas, quando procura culpados em vez de resolver dificuldades e quando divide as comunidades para obter vantagem eleitoral.

A resposta dos partidos democráticos não pode ser ignorar os problemas nem copiar o discurso populista.

Tem de ser melhorar os serviços públicos, aproximar o Estado, garantir igualdade territorial e devolver às pessoas a confiança de que a política é capaz de melhorar as suas vidas.

Anunciou uma agenda regional baseada na auscultação dos autarcas, empresários, agricultores e associações. Que marca pessoal quer deixar na Federação do PS do Baixo Alentejo e como pretende aproximar o partido das populações?

Quero deixar uma Federação mais presente, mais organizada, mais aberta e mais útil ao território.

Vamos percorrer o Baixo Alentejo, concelhia a concelhia, ouvindo os militantes, os autarcas e os eleitos do Partido Socialista.

Mas não ficaremos fechados dentro do Partido. Queremos ouvir empresas, agricultores, sindicatos, instituições sociais, associações, jovens, investigadores e todos os que tenham contributos para dar ao futuro da região.

O objetivo é construir uma Agenda para o Baixo Alentejo com prioridades claras, propostas concretas e compromissos avaliáveis.

Quero também reforçar o apoio às concelhias, sobretudo àquelas onde somos oposição, preparar novos quadros e promover uma renovação que combine a experiência de quem construiu o Partido com a energia de uma nova geração.

A marca que gostaria de deixar é a de uma Federação que escuta antes de decidir, que está presente entre eleições, que transforma problemas em propostas e que consegue unir o Partido em torno de três grandes objetivos: reter mais valor, fixar pessoas e dar mais voz ao Baixo Alentejo.

Não quero uma Federação que fale apenas em nome do território. Quero uma Federação que fale com o território e que seja reconhecida pelas populações como uma força de proximidade, exigência e esperança.

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