O Portugal que Montenegro celebrou não vive no Alentejo

O Portugal que Montenegro celebrou não vive no Alentejo

Não, não vou comentar o discurso de Natal do Primeiro-Ministro. Vou falar de estatísticas, aquelas que dizem que a pobreza em Portugal está nos níveis mais baixos dos últimos 20 anos. Os gráficos descem e os discursos oficiais respiram de alívio. Mas há um problema sério quando a média nacional serve de anestesia coletiva: ela esconde quem está a afundar. E hoje quem está a pagar a fatura desse otimismo estatístico é o Alentejo.

Enquanto o país celebra, o Alentejo empobrece. Não por acaso, nem por fatalidade geográfica, mas por uma combinação tóxica de desigualdade estrutural, abandono político e cegueira estratégica. Os dados são claros: foi nesta região que a pobreza mais subiu no último ano, ao ponto de o Alentejo passar a ser considerado a região mais pobre do país. Um título que ninguém disputa, mas que todos fingem não ver.

É verdade que, em termos globais, há menos 100 mil pessoas em situação de pobreza. Mas também é verdade que 1,7 milhões de portugueses continuam a viver com menos de 723 euros por mês. E mais grave ainda: quase 300 mil crianças vivem abaixo do limiar da pobreza. Crianças. Num país que gosta de se apresentar como moderno, europeu e socialmente responsável.

A pobreza infantil é o maior fracasso de qualquer política pública. E em Portugal, apesar das melhorias anunciadas, ela continua praticamente intacta. Reduziu pouco, quase nada. E isso diz muito sobre as prioridades reais do Estado. Famílias monoparentais e numerosas continuam a ser empurradas para a margem, com apoios insuficientes, serviços públicos distantes e oportunidades cada vez mais concentradas nos grandes centros urbanos.

Os Açores, durante anos o símbolo da pobreza estrutural, conseguiram uma descida histórica. O Alentejo, pelo contrário, afunda-se. Não por falta de trabalho ou de valor, mas porque continua a ser tratado como território periférico: bom para produzir, bom para explorar, bom para estatísticas agrícolas, mas fraco candidato a investimento social consistente.

Os números podem ser os melhores desde 1994, mas a desigualdade continua viva, ativa e territorializada. E isso deveria incomodar mais do que qualquer gráfico animador.

Ouvimos vezes sem conta esta frase: “é urgente repensar as políticas de combate à pobreza”. A pergunta é simples: repensar para quem? Se for mais do mesmo, o Alentejo continuará a empobrecer em silêncio, enquanto Lisboa discute percentagens.

A pobreza pode estar a descer nos relatórios. Mas no Alentejo, ela continua a bater à porta, e cada vez com mais força.

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Farmácia de serviço hoje na cidade de Beja

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