Onde estão as peças de Arte Sacra da Diocese de Beja?

Muitas peças de Arte Sacra, cedidas pelas várias paróquias da diocese de Beja para exposições promovidas pelo DPHA nunca terão chegado a ser restituídas.

Avaliadas em centenas de milhares de euros, as peças terão sido entregues a JAF – na altura diretor do DPHA da Diocese de Beja – e à sua mulher, Sara Fonseca, vogal da direção.

A Rádio Pax sabe que a diocese contactou todas as paróquias no sentido de informarem que peças têm em falta. Até ao momento, apenas Beringel e Cuba apresentaram uma descrição do património que não foi devolvido. “Nestes dois casos sabe-se quem as levou e quem não as entregou”, revelou fonte da diocese referindo-se a JAF.

Maria Augusta, elemento da Comissão Fabriqueira (CF) da paroquia de Beringel, tem em sua posse documentos, assinados pelo padre José Manuel Fachadas e pelo próprio JAF, que provam a cedência de um total de 17 peças para exposições promovidas pelo DPHA. Alguns desses exemplares saíram em 2005, estiveram expostos no Algarve e deviam ter regressado à comunidade de Beringel em 2006. Em Outubro de 2009, a CF enviou um ofício a JAF, director do DPHA, reclamando as peças em falta. Não houve qualquer resposta. No ano seguinte (2010) houve nova tentativa e continuaram sem obter qual explicação. Os esforços sucederam-se, mas sem sucesso.

Segundo fonte da igreja, do Seminário de Beja, onde existem vários exemplares de pintura, escultura, artes decorativas (ourivesaria, joalharia, mobiliário, paramentaria, entre outras), saíram, em 2006, 15 resplendores de prata para mais uma exposição. Passados 14 anos, estas peças ainda não foram devolvidas, garante a mesma fonte. 

JAF, na altura, quadro superior da Secretaria de Estado da Cultura, ao serviço da diocese de Beja, deveria ter feito o levantamento e apresentado um inventário desse património à igreja, só que não o terá feito. “Se existe não está na posse da diocese”, afirma um pároco que saiu da direcção do DPHA descontente com a forma como o departamento estava a ser gerido. “Não davam contas (José António Falcão e Sara Fonseca) do que faziam”, acrescentou.

Em 2017, o Bispo de Beja, D. João Marcos de Beja, decide extinguir o DPHA justificando, na altura, não se ter “revelado o meio mais adequado para atingir os objectivos que presidiram à sua constituição”. No entanto, a Rádio Pax sabe que, na verdadeira origem desta extinção, esteve a gestão danosa do departamento, que obrigou a diocese a ter de devolver cerca de 450 mil euros em fundos comunitários.

Recorde-se que o departamento foi criado em 1984 e entre as actividades realizadas está o Festival de Música Sacra do Baixo Alentejo e o Terras sem Sombra.

Pouco tempo depois, a diocese criou um grupo de trabalho, liderado pelo padre Manuel António, pároco de Grândola, com o objectivo de fazer o inventário do património da diocese e trabalhar para que “as peças em falta voltem aos seus legítimos proprietários e à comunidade de onde saíram”, revelou o sacerdote.

Confrontado com a situação JAF esclarece que “quando terminavam as exposições temporárias, as peças eram devolvidas à sua proveniência” com exceção de alguns casos em que “os responsáveis das paróquias ou da Diocese consideravam que não havia condições de segurança ou de conservação para regressar logo aos locais de origem”.

Nessas situações, as peças “ficavam nos museus da Diocese, no Seminário ou na Casa Episcopal”. O antigo diretor do DPHA explica que “foi o que sucedeu com [as peças] Beringel”.

Quando cessou funções, no DPHA, em 2016, José António Falcão recorda-se que “havia peças entregues para exibição, que não tinham ainda sido devolvidas à origem e que se encontravam no Museu Episcopal de Beja, no Museu de Arte Sacra de Santiago do Cacém, no Museu de Arte Sacra de Moura, na Igreja de Nossa Senhora ao Pé da Cruz, no Seminário Diocesano e na Casa Episcopal de Beja”.

A Rádio Pax tentou falar com D. João Marcos, Bispo de Beja, mas sem sucesso.

Entretanto, a pergunta que se impõe continua sem resposta: onde estão as peças de Arte Sacra da Diocese de Beja?