Pão mais caro, dependência total: Portugal deixou morrer o trigo e agora paga a fatura (Reportagem Rádio Pax)

Prepare-se para pagar mais pelo pão. A escalada do preço do trigo nos mercados internacionais ameaça fazer disparar, já a partir de outubro, os preços de um dos alimentos mais básicos da alimentação dos portugueses. E por trás desta subida está uma fragilidade que há décadas se agravou: Portugal produz hoje apenas uma pequena parte dos cereais de que necessita e, no caso do trigo, a produção nacional cobre cerca de 5% das necessidades.

O país está, assim, à mercê do mercado internacional. Cerca de 80% dos cereais consumidos em Portugal são importados e, quando se fala especificamente de trigo, a dependência externa ultrapassa os 90%. Se o preço internacional sobe, a fatura acaba inevitavelmente por chegar às famílias.

E os sinais já estão aí. A cotação mundial do trigo registou uma subida de 37%, num contexto marcado pela instabilidade geopolítica no Mar Negro, pelas secas que atingem várias regiões da Europa e pelo aumento dos custos de produção e transporte.

A Associação do Comércio e da Indústria de Panificação, Pastelaria e Similares admite aumentos do preço do pão a partir de outubro. As padarias enfrentam já, desde junho, aumentos médios de cerca de 10% em matérias-primas como o trigo panificável e as leveduras, enquanto energia, transportes e mão-de-obra continuam a pressionar os custos.

Mas o problema não termina na padaria. O encarecimento dos cereais pode contaminar uma cadeia muito mais extensa. Massas, bolachas, produtos de pastelaria e cerveja estão entre os produtos diretamente expostos. E há ainda efeitos indiretos sobre carne, leite e ovos, devido ao aumento do custo das rações utilizadas na produção animal.

A situação torna-se ainda mais preocupante quando se olha para a evolução da agricultura portuguesa.

Durante décadas, o Alentejo foi conhecido como o “celeiro de Portugal”. As grandes planícies alentejanas eram dominadas por extensas searas e o trigo tinha um peso muito maior na agricultura nacional.

Nos anos 70, Portugal chegou a produzir, em anos favoráveis, entre 400 mil e 600 mil toneladas de trigo. Na década seguinte registaram-se ainda anos excecionais, com a produção a ultrapassar as 600 mil toneladas e a aproximar-se, em alguns momentos, das 800 mil toneladas.

A entrada de Portugal na Comunidade Económica Europeia, em 1986, e sobretudo as alterações introduzidas na Política Agrícola Comum durante os anos 90 mudaram radicalmente a economia da cultura cerealífera.

Em 1990, Portugal ainda conseguia assegurar cerca de 60% das suas necessidades de trigo com produção nacional. Poucos anos depois, a produção entrou em queda acentuada, passando para valores inferiores a 200 ou 300 mil toneladas no final da década.

A produção nacional de trigo ronda apenas 59 mil toneladas, enquanto o país necessita de importar a esmagadora maioria do cereal utilizado na alimentação.

O território que durante décadas foi associado à produção cerealífera deixou progressivamente de produzir trigo em quantidade suficiente para alimentar o próprio país.

No Alentejo, a agricultura de sequeiro perdeu competitividade. Sem água garantida e perante margens reduzidas, muitos agricultores abandonaram o cereal e optaram por culturas consideradas mais rentáveis.

E foi aqui que surgiu uma das maiores transformações agrícolas das últimas décadas: o Alqueva.

A construção do Empreendimento de Fins Múltiplos do Alqueva mudou profundamente a paisagem agrícola alentejana. Mais de 130 mil hectares estão atualmente abrangidos pelo regadio, permitindo uma agricultura muito mais produtiva, diversificada e orientada para mercados nacionais e internacionais.

Onde antes predominava o trigo, cresceram olivais, amendoais, vinhas, pomares e culturas hortícolas, muitas delas destinadas à exportação.

O Alentejo passou de uma agricultura essencialmente dependente da chuva para um modelo agrícola moderno, tecnológico e fortemente ligado ao regadio.

O Alqueva permitiu aumentar a produtividade, atrair investimento e transformar o Alentejo numa potência agrícola em várias culturas.

Portugal tornou-se, por exemplo, um importante produtor e exportador de azeite, enquanto o olival e o amendoal ganharam uma dimensão que seria difícil imaginar há algumas décadas.

Mas existe uma consequência que merece ser discutida: a segurança alimentar nacional deixou de estar necessariamente alinhada com a rentabilidade económica das culturas.

Produzir trigo pode ser estratégico para o país, mas se outras culturas proporcionarem maior rendimento ao agricultor, é natural que as terras sejam ocupadas por essas produções.

É aqui que surge o paradoxo. Portugal pode exportar azeite, fruta ou outros produtos agrícolas em grandes quantidades e, simultaneamente, continuar dependente do estrangeiro para comprar o trigo que coloca na mesa dos portugueses.

E se o mercado internacional fechar a torneira? A vulnerabilidade não está apenas no preço. Portugal dispõe de reservas estratégicas de cereais muito reduzidas, suficientes para apenas duas a três semanas de consumo.

Num cenário de crise internacional, bloqueio de rotas marítimas, problemas nos portos ou perturbações nos grandes países produtores e exportadores, o país ficaria particularmente exposto.

É uma questão que vai muito além do preço de um papo seco.

É uma questão de segurança alimentar.

Se Portugal produz apenas uma pequena fração do trigo que consome, qualquer crise internacional pode transformar rapidamente uma subida de preços num problema de abastecimento.

A questão é inevitável: como é que um país que já foi capaz de produzir grande parte do trigo de que necessitava acabou dependente do exterior para garantir um alimento tão básico como o pão?

Não existe uma resposta simples. A agricultura mudou. Os mercados mudaram. A política agrícola europeia mudou. O clima mudou. E os agricultores passaram naturalmente a procurar culturas capazes de garantir maior rendimento e menor risco económico.

Quando o trigo sobe 37% nos mercados internacionais, Portugal não controla a matéria-prima. Quando as importações são interrompidas, Portugal não tem produção suficiente para compensar. E quando os custos aumentam, quem acaba por pagar é o consumidor.

O primeiro sinal poderá chegar já em outubro, com o aumento do preço do pão.

Mas a verdadeira fatura pode ser muito maior porque o problema não é apenas pagar mais por um pão.

É viver num país que, apesar de possuir uma das maiores áreas agrícolas do território nacional no Alentejo, deixou de produzir em quantidade suficiente um dos alimentos essenciais da sua própria população.

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Farmácia de serviço hoje na cidade de Beja

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