Serpa prepara-se para viver uma das campanhas autárquicas mais imprevisíveis (e talvez das mais animadas) da sua história recente. Num cenário onde as ideologias se cruzam com egos feridos, regressos inesperados e ajustes de contas antigos, o que está em jogo vai muito além da presidência da câmara.
Comecemos por João Dias. Depois de ter perdido o seu lugar na Assembleia da República nas legislativas de 2024, o ex-deputado comunista decidiu virar agulhas para o plano local e anunciou a candidatura à Câmara Municipal de Serpa. O detalhe curioso? Vai enfrentar, como adversário, ninguém menos que João Rocha, histórico presidente da autarquia serpense, também comunista. Sim, camaradas de longa data e, agora, rivais.
João Rocha, recorde-se, foi durante décadas o rosto do poder local em Serpa. Chegou a ser presidente da Câmara de Beja. Quando se recandidatou a um segundo mandato, perdeu para Paulo Arsénio (PS). Sentiu-se deixado para trás pelo próprio partido e, com isso, decidiu avançar como independente, liderando o movimento “Fazer Serpa”. Um nome sugestivo, quase provocador. Uma coisa é certa: Rocha não desiste facilmente.
Do lado da direita, a novela também promete capítulos intensos. Ana Moisão, que se elegeu vereadora pelo Chega, teve um curto-circuito com a estrutura distrital do partido, demitiu-se da liderança da Comissão Política de Beja, e acabou mesmo por abandonar o Chega em janeiro de 2023. Manteve-se no executivo como independente. Agora faz um verdadeiro “regresso às origens”: será a candidata da coligação PSD/CDS-PP à Câmara de Serpa.
Acontece que o Chega não ficou a ver aviões e apresenta como candidato o reformado da Força Aérea, Mário Cavaco. Um nome que ganha ainda mais destaque por ter protagonizado alguns episódios de tensão interna com a própria Moisão: com direito a trocas de acusações nas redes sociais. Agora, ambos irão disputar votos no terreno. Companheiros políticos ontem, adversários diretos hoje.
Já o Partido Socialista aposta em Francisco Picareta, engenheiro civil, natural de Serpa. À partida, estas eleições poderiam ser uma oportunidade de ouro para o PS conquistar um concelho tradicionalmente dominado pela CDU. Mas… há sempre um “mas”. O fantasma de António Costa, o colapso nas legislativas e o desgaste do Governo anterior pairam sobre a candidatura. E como se não bastasse, o PS decidiu convidar para encabeçar a lista à Assembleia Municipal Ricardo Mestre, ex-Secretário de Estado da Saúde no Governo de Costa. Uma escolha que levanta sobrancelhas, numa altura em que o distanciamento do legado do ex-primeiro-ministro seria, talvez, mais estratégico.
Confusões partidárias, colegas, camaradas, companheiros em modo revanche. Alianças improváveis e promessas de confronto direto entre velhos conhecidos. Serpa está em ebulição política.
O desfecho? Está nas mãos dos eleitores. Mas uma coisa é certa: vai ser tudo menos aborrecido.