Não tem coroa. Não tem trono. Mas governa como nenhum rei do mundo ocidental tem poder para governar.
Quando o Rei Carlos III visitou os Estados Unidos, o contraste entre a sua pose serena, o respeito pelo protocolo e a dignidade do seu comportamento não podiam ser mais evidentes — sobretudo quando comparados com os do atual presidente dos Estados Unidos.
É neste contraste — entre o homem que tem o título mas não tem o poder, e o homem que tem o poder sem precisar do título — que se espelha a absurda realidade em que vivemos. Para Carlos III, a coroa representa um poder puramente simbólico. Já Trump, eleito presidente da maior democracia do mundo, governa como um monarca absolutista: como se as regras não existissem, como se a Constituição fosse uma mera sugestão e como se o cargo lhe pertencesse — e com ele, tudo o resto. Os factos falam por si, e são inegáveis:
Trump tem o poder exclusivo e absoluto de ordenar um ataque nuclear. Sem aprovação do Congresso. Sem veto do Supremo. Sem consulta ao Gabinete. Uma ordem sua — uma única ordem — e o processo de destruição em massa é irreversível. E quando justificou o ataque militar ao Irão com o argumento de que regimes instáveis não devem ter acesso a armas nucleares, poucos ousaram dizer o óbvio: esse critério descreve com precisão assustadora a atual Casa Branca. É urgente que os Estados Unidos repensem os limites dos poderes atribuídos ao seu Presidente.
Trump concedeu imunidade fiscal e legal, passada e futura, a si próprio, à família e às suas empresas — formalizada pelo próprio Departamento de Justiça do país que governa. Acima da lei. Literalmente. Como os monarcas absolutos que governavam pela graça divina e não respondiam perante ninguém. O nível de corrupção do atual governo dos Estados Unidos é tão descarado que chega a ser caricatural.
Trump abalou o mundo com decretos unilaterais, tratando aliados históricos como se fossem adversários e adversários históricos como aliados de circunstância. Bombardeou o Irão. Provocou o fecho do estreito de Ormuz. Desencadeou a maior crise económica mundial desde o século passado sem que ninguém o conseguisse travar e enquanto o resto do mundo paga a conta, aproveita para lucrar indecorosamente com ela.
Trump ameaçou anexar a Gronelândia, absorver o Canadá e retomar o Panamá — evocando a Doutrina Monroe, um princípio imperial expansionista do século XIX, como se o direito internacional não existisse e o desrespeito pela soberania dos outros países fosse perfeitamente aceitável.
Trump perdoou todos os condenados pelo assalto ao Capitólio de 6 de Janeiro de 2021 — incluindo os que espancaram polícias e os que ergueram forcas em frente ao Congresso. Perdoou-os porque eram os seus. Porque o poder de perdoar é seu, e usa-o como um rei usa a graça real: para proteger os leais e punir os outros. E não se ficou por aí: criou um fundo milionário, financiado pelos contribuintes americanos, para os indemnizar.
Trump expandiu a pena de morte. Mais estados. Novos métodos. O fuzilamento como método de execução — que as democracias ocidentais abandonaram precisamente por ser considerado uma forma de punição cruel e degradante, incompatível com os valores do Estado de Direito— foi reautorizado já em vários estados, como é o caso do Idaho, Mississippi e Utah.
E o discurso de Trump em torno da pena de morte não se limita a crimes extremos: tem abrangido traficantes de droga, imigrantes em situação irregular acusados de crimes, e até adversários políticos. O poder de vida e morte sobre os cidadãos é, historicamente, a prerrogativa máxima do soberano absoluto.
Trump perseguiu imigrantes com meios militares, retórica de invasão e campos de detenção sem garantias processuais — ele, cujo avô Friedrich era um imigrante alemão sem a documentação em ordem, expulso da Baviera por deserção militar, e que chegou à América sem nada e fez fortuna a explorar bares e alojamentos que serviam de bordéis durante a corrida do ouro no final do século XIX.
Trump silenciou, intimidou e pressionou os meios de comunicação que o contrariaram — retirou licenças de emissão, lançou processos judiciais, marginalizou jornalistas. Porque um rei absolutista, não tolera criticas.
Não me incomoda que exista um rei em Inglaterra. Incomoda-me que o presidente da maior democracia do mundo governe como se fosse um. Incomoda-me que as instituições criadas para o impedir não o tenham impedido. Incomoda-me que o país que ergueu a Estátua Liberdade esteja hoje a demonstrar, com uma clareza dolorosa, como ela se perde. Não de um só golpe. Decreto a decreto. Perdão a perdão. Mentira a mentira. Até ao momento em que o Rei Carlos III chega em visita a Washington. E é o único na sala que sabe onde terminam os seus poderes – e que defende os valores democráticos.