A Feira do Porco Alentejano abriu portas esta sexta-feira, em Ourique, num clima que mistura celebração e preocupação. Logo na sessão de abertura, o tom foi dado por um seminário de título inequívoco: “Porco Alentejano em risco de extinção e ameaças: Elevada população de javalis e PSA”. Na sala, veterinários, produtores e especialistas do sector juntaram-se para discutir o que muitos consideram ser uma “crise silenciosa”, mas potencialmente devastadora para uma das mais emblemáticas raças autóctones portuguesas.
O Porco Alentejano, figura incontornável da paisagem e da gastronomia do sul de Portugal, em particular, do concelho de Ourique, enfrenta hoje dois inimigos de monta. O primeiro é biológico: a proliferação descontrolada de javalis nas montarias e nos montados tem colocado uma pressão crescente sobre as explorações de porco preto, com riscos de cruzamento genético que ameaçam a pureza da raça. O segundo é sanitário e de dimensão europeia: a Peste Suína Africana (PSA), doença viral sem cura e sem vacina eficaz, continua a avançar pelo continente, deixando os criadores portugueses em alerta máximo.
No seminário que marcou a abertura da feira, os especialistas presentes não pouparam nas palavras. A mensagem foi clara: sem medidas concretas e urgentes de controlo populacional do javali, de vigilância epidemiológica e de apoio às explorações, a fileira do Porco Alentejano pode ver comprometido um futuro que, até há pouco, parecia garantido pelo crescimento do mercado de produtos de qualidade.
Segundo Pedro Camacho, vice-presidente da autarquia, para Ourique, o alerta tem contornos ainda mais sensíveis. O autarca afirma que o concelho tem na criação do porco preto uma das suas principais apostas de desenvolvimento económico. “A fileira é reconhecida pelas autoridades locais como estratégica, não apenas pelo emprego e rendimento que gera, mas pelo papel que desempenha na preservação do montado e na identidade territorial de toda uma região”.
A Feira do Porco Alentejano é, assim, muito mais do que uma montra comercial. É, também, um espaço de debate e de resistência, onde quem vive do porco preto se encontra para perceber como defender o que é seu, e o que é de todos.
A feira prossegue nos próximos dias com demonstrações, provas de produtos e iniciativas de promoção desta raça autóctone