Serpa desafia preconceitos: mulheres da Idade do Bronze eram enterradas com armas e mais riqueza

Serpa desafia preconceitos: mulheres da Idade do Bronze eram enterradas com armas e mais riqueza

Serpa está no centro de uma descoberta arqueológica que está a surpreender a comunidade científica internacional. Um estudo conduzido pela arqueóloga Marta Borges, no concelho alentejano, revela que, há cerca de 3.500 anos, as mulheres eram sepultadas com mais oferendas e objetos de prestígio do que os homens, incluindo armas, contrariando ideias tradicionais sobre o papel feminino na Idade do Bronze.

A investigação analisou 57 hipogeus (sepulturas subterrâneas escavadas na rocha) em sete locais do município de Serpa. O trabalho, desenvolvido no âmbito de uma dissertação de mestrado da Universidade do Minho, foi agora destacado na revista científica internacional “Quaternary” e também pelo jornal francês “Le Figaro”.

Segundo Marta Borges, os vestígios encontrados mostram que os indivíduos do sexo feminino surgem associados a maior quantidade e diversidade de oferendas funerárias, como cerâmica, objetos metálicos e, em alguns casos, armas.

A arqueóloga considera que os dados questionam a visão tradicional de que apenas os homens tinham acesso a bens de prestígio nas sociedades antigas.

Entre os achados mais relevantes está um punhal encontrado num hipogeu feminino em Torre Velha 3, em Serpa. Estudos arqueometalúrgicos indicam que a peça apresenta uma composição em bronze tecnologicamente avançada para a época, incluindo rebites de prata com função simbólica, revelando a existência de redes de troca de longa distância no sul da Península Ibérica.

Ainda assim, Marta Borges alerta que a presença de armas nas sepulturas não significa necessariamente que estas mulheres fossem guerreiras. A investigadora sublinha que as oferendas funerárias refletem sobretudo o reconhecimento social atribuído pela comunidade no momento da morte.

O estudo reforça a ideia de que as sociedades da Idade do Bronze seriam mais complexas e menos rígidas do que muitas vezes se assume atualmente.

A próxima fase da investigação deverá incluir análises de ADN antigo e estudos isotópicos, que poderão ajudar a compreender relações familiares, mobilidade e hábitos de vida destas comunidades pré-históricas do Alentejo.

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