Portugal está a ganhar terreno na corrida europeia aos centros de dados e Sines surge como uma das localizações com maior potencial, numa altura em que o crescimento da Inteligência Artificial está a provocar uma procura sem precedentes por capacidade informática e energia.
Um novo relatório da consultora JLL coloca Portugal entre os mercados europeus secundários mais competitivos para receber estas infraestruturas, graças à combinação entre disponibilidade de eletricidade renovável, conectividade internacional, localização geográfica e espaço para grandes instalações.
A dimensão desta transformação é significativa. Segundo a JLL, a Inteligência Artificial poderá representar cerca de metade de toda a capacidade mundial dos centros de dados até 2030. E os novos projetos estão a afastar-se dos grandes centros urbanos europeus, à procura de terrenos, energia e capacidade de ligação à rede.
É neste contexto que Portugal ganha vantagem. Mais de 80% da eletricidade produzida no país tem origem em fontes renováveis, enquanto, segundo a REN, as renováveis asseguraram 68% do consumo nacional de eletricidade em 2025.
Mas há outro trunfo: a conectividade. Portugal está ligado a vários cabos submarinos internacionais, incluindo o 2Africa, com cerca de 45 mil quilómetros de extensão e ligações a 33 países. A conectividade deverá reforçar-se a partir de 2027 com o cabo Nuvem, da Google, previsto para ligar Portugal aos Estados Unidos.
E é no litoral alentejano que está um dos projetos de maior dimensão. O Start Campus, em Sines, prevê atingir 1.200 megawatts de capacidade, com funcionamento integralmente suportado por energia renovável. Um projeto que poderá colocar Sines no mapa europeu das grandes infraestruturas digitais associadas à Inteligência Artificial.
A JLL destaca ainda o Merlin Edged Campus, em Vila Franca de Xira, que deverá arrancar com 180 megawatts, podendo chegar aos 300.
No conjunto, a região de Lisboa tem uma capacidade planeada de cerca de 1.300 megawatts, numa escala que começa a ser comparada às chamadas “gigafábricas” de Inteligência Artificial que estão a surgir na Europa.
Os números da consultora Savills reforçam esta tendência: Portugal é já o décimo mercado de centros de dados que mais cresceu no mundo desde 2024, com um aumento de 23% da capacidade instalada.
O crescimento, contudo, traz desafios. Portugal terá de garantir trabalhadores altamente qualificados, criar uma cadeia de fornecimento nacional capaz de acompanhar os investimentos e assegurar transparência sobre o impacto ambiental destas grandes infraestruturas.
A corrida está lançada e Portugal parte com vantagens importantes. Energia renovável, cabos submarinos, território disponível e Sines no centro da estratégia podem transformar o país num novo ponto de passagem da economia digital europeia.