Os viticultores portugueses levaram esta quinta-feira o descontentamento para a rua e Beja não ficou de fora. A Praça da República foi um dos 39 pontos do país onde produtores se concentraram numa ação nacional promovida pela Associação Técnica dos Viticultores do Alentejo, a ATEVA. No Alentejo, os protestos passaram também por Évora, Vidigueira e Amareleja.
A mensagem foi direta: o setor não contesta a possibilidade de Portugal importar vinho de outros países da União Europeia, mas exige que a origem seja clara, rastreável e devidamente identificada até chegar ao consumidor.
A contestação ganha força num momento em que os números mostram um peso crescente do vinho estrangeiro no mercado nacional.
Em 2025, Portugal importou cerca de 2,1 milhões de hectolitros de vinho, o equivalente a aproximadamente 210 milhões de litros. O volume aumentou 8,4% face ao ano anterior e o valor das importações atingiu 161 milhões de euros. Espanha foi, de longe, o principal fornecedor, representando perto de 95% de todo o vinho importado em volume.
Mas é sobretudo o vinho a granel que está no centro das preocupações dos produtores.
Esta categoria representou mais de 66% do volume total de vinho importado em 2025 e cresceu 15,2% relativamente ao ano anterior.
Para os viticultores, estes números justificam um reforço urgente da fiscalização, numa altura em que muitos produtores nacionais enfrentam dificuldades para escoar as uvas e para assegurar preços capazes de suportar os custos de produção.
Em Beja, Filipe Cameirinha, empresário do setor vitivinícola e responsável pela Herdade da Figueirinha, defendeu que o problema não está na existência das importações, mas na necessidade de saber exatamente o que acontece ao vinho estrangeiro depois de entrar no país.
O produtor reclama maior controlo, fiscalização mais apertada e regras de rotulagem que permitam ao consumidor identificar, sem dúvidas, a verdadeira proveniência do produto.
Filipe Cameirinha alerta ainda para aquilo que considera ser uma pressão crescente sobre os preços pagos aos produtores portugueses, num mercado onde o vinho importado a preços mais baixos pode aumentar a concorrência sobre a produção nacional.
A legislação portuguesa e europeia já estabelece regras sobre designação, apresentação, rastreabilidade e rotulagem dos produtos vitivinícolas. O próprio Instituto da Vinha e do Vinho determina que a constituição de determinados lotes deve identificar a origem e o volume dos vinhos utilizados e prevê regras específicas para produtos estrangeiros comercializados em Portugal.
A regulamentação portuguesa foi também reforçada precisamente para evitar que vinhos embalados em Portugal, resultantes de misturas de produtos provenientes de outros Estados-membros, possam induzir o consumidor em erro quanto à sua origem.
Além disso, a circulação de produtos vitivinícolas está sujeita a documentação de acompanhamento, destinada a garantir a rastreabilidade dos movimentos entre operadores.
É por isso que a reivindicação dos produtores vai para além da existência das regras: querem saber se estão a ser suficientemente fiscalizadas no terreno.
Para Filipe Cameirinha, soluções pontuais como apoios à destilação ou incentivos ao arranque de vinha não respondem, por si só, aos problemas estruturais que atingem o setor. O empresário defende medidas de médio e longo prazo que garantam sustentabilidade económica aos viticultores e protejam o valor da produção nacional.
A preocupação ganha ainda maior dimensão numa região como o Alentejo, onde a vinha tem um peso importante na economia agrícola e onde uma redução prolongada do preço das uvas pode colocar pressão sobre numerosas explorações.
O protesto deixa, assim, várias perguntas dirigidas às autoridades: quem controla efetivamente os milhões de litros de vinho estrangeiro que entram em Portugal? É possível acompanhar todo o produto desde a entrada no país até ao consumidor? E consegue o comprador perceber claramente, através do rótulo, se aquilo que está a beber é vinho português, espanhol ou uma mistura de diferentes origens?
Os viticultores querem respostas e deixam um aviso: defender o vinho português não significa fechar as fronteiras ao produto espanhol. Significa, dizem, garantir concorrência leal, transparência no mercado e uma regra que consideram elementar: vinho produzido em Espanha não pode chegar ao consumidor como se tivesse nascido nas vinhas portuguesas.