Há homens que só procuram ajuda quando o sofrimento já se tornou difícil de esconder. É precisamente antes desse momento que uma nova associação criada no concelho de Odemira quer intervir. “O Homem Possível”, apresentada publicamente em Vila Nova de Milfontes, nasce para criar espaços onde a população masculina possa falar de saúde mental sem vergonha ou isolamento.
O projeto foi fundado pelo psicólogo João Vaz, depois de mais de uma década de trabalho com homens em acompanhamento individual, grupos e retiros. Dessa experiência, diz ter retirado uma conclusão: muitos homens chegam tarde ao apoio e frequentemente sem uma rede onde possam falar abertamente sobre aquilo que estão a viver.
A associação pretende combinar psicologia, apoio entre pares e práticas corporais, procurando atuar não apenas junto dos homens, mas também produzir efeitos positivos nas famílias e comunidades onde estão inseridos.
Um dos projetos será o “Buddy Program”, baseado no acompanhamento regular entre homens. A iniciativa terá supervisão mensal de um psicólogo e procedimentos definidos para encaminhar para apoio especializado os casos em que isso seja necessário.
“O Homem Possível” pretende igualmente criar uma rede de profissionais, envolvendo áreas que vão da psicologia e medicina familiar à urologia, com acesso gratuito.
Outra frente de intervenção serão as escolas do concelho de Odemira. Para rapazes entre os 10 e os 18 anos estão previstas sessões práticas sobre literacia emocional, relações, consentimento e masculinidades saudáveis.
João Vaz considera que trabalhar estas questões durante a adolescência pode evitar problemas mais tarde e defende uma aposta forte na prevenção.
A associação sublinha, contudo, que não pretende substituir o Serviço Nacional de Saúde nem funcionar como resposta de emergência. O objetivo é atuar numa fase anterior, criando acompanhamento, grupos regulares e uma rede capaz de ouvir e orientar.
O projeto nasceu em Vila Nova de Milfontes, mas quer chegar a outras freguesias de Odemira e também às empresas agrícolas onde trabalham milhares de homens, incluindo trabalhadores migrantes afastados das respetivas famílias e redes de apoio.
Estão ainda previstos encontros mensais, retiros duas vezes por ano, um festival de quatro dias no Alentejo, em junho de 2027, e uma expedição ao Nepal nesse mesmo ano.