A escolha de Tancos para a escola de pilotos da Lufthansa, um investimento estimado em 500 milhões de euros, abriu uma guerra política no Baixo Alentejo. De um lado, o PS pergunta o que mudou desde o verão do ano passado. Do outro, o PSD acusa quem protesta de servir interesses partidários.
Quando a decisão foi anunciada, na quarta-feira, 14 de outubro, a Comunidade Intermunicipal do Baixo Alentejo (CIMBAL), que reúne treze municípios, classificou-a como uma “forte desconsideração pelo Baixo Alentejo” e enviou um protesto ao primeiro-ministro, Luís Montenegro.
Foi nesse contexto que o antigo presidente da Câmara de Beja, Paulo Arsénio, hoje vereador socialista na oposição, decidiu quebrar o silêncio. Segundo o autarca, a 18 de junho de 2025 a Câmara recebeu um e-mail de Maximilian Kiewel, responsável do Grupo Lufthansa pela política de defesa e pelas relações com a NATO. A mensagem descrevia Beja como “uma solução de excelência” para uma escola de pilotos de nova geração, destinada à Força Aérea Alemã e à NATO. Elogiava as condições da Base Aérea e da cidade e recordava a ligação histórica entre Beja e a Alemanha.
A comitiva da Lufthansa foi recebida na Câmara a 16 de julho de 2025, às 11h00. Paulo Arsénio conta que lhe foi explicado que o projeto seria, na prática, duas escolas: uma para pilotos militares da NATO, começando pelos alemães, e outra, mais pequena, para pilotos da própria companhia. Beja era “uma forte possibilidade”, e o processo estava a ser tratado com o Governo. Nada foi tornado público na altura, diz o autarca, “porque o recato e o sentido de responsabilidade são parte integrante destes processos complexos”.
Por isso, Paulo Arsénio confessa-se surpreendido com a opção por Tancos. Reconhece que a Força Aérea nunca permitiu escolas de pilotagem na Base de Beja, mas defende que esta seria diferente: seria sobretudo militar, abrangeria a NATO e seria gerida por um parceiro estratégico do Estado, a Lufthansa, que entretanto comprou 44,9% da TAP por 1.201 milhões de euros. Se era preciso uma pista nova, pergunta, porque não construí-la em Beja, onde já há duas?
O vereador exige saber quem decidiu, com que argumentos e com que pareceres técnicos, e que esses documentos sejam divulgados. A conclusão é uma pergunta: “Algo se passou entre julho de 2025 e outubro de 2026. O quê?”
A resposta chegou do deputado social-democrata Gonçalo Valente, em defesa do Governo. Acusa parte da CIMBAL de “profunda irresponsabilidade”, de ser “alarmista e servilista”, e lembra que alguns presidentes de câmara não tiveram conhecimento do comunicado ou discordaram dele. Diz ainda que a comunidade intermunicipal não deve comportar-se “como um braço armado do Partido Socialista” e que é essa postura que explica o pouco respeito do poder central pelo território.
Quanto à substância, o deputado argumenta que a Base Aérea de Beja é a maior do país e que o seu espaço aéreo é usado em permanência pela Força Aérea. Uma escola de formação intensiva, defende, obrigaria a acabar com a atividade militar tal como existe hoje, o que seria “inaceitável”. Tancos, pelo contrário, é uma infraestrutura do Exército subaproveitada, com muito espaço aéreo disponível, e os investimentos seriam assegurados pela Lufthansa, poupando o Orçamento do Estado.
Gonçalo Valente destaca que Beja também foi contemplada, tendo sido escolhida para acolher uma unidade de produção dos aviões militares A-29 Super Tucano. Um investimento que promete criar emprego qualificado e dar um novo impulso ao setor aeronáutico da região. Mas o dirigente social-democrata não deixa escapar uma crítica à CIMBAL, sublinhando, com ironia, que ainda não viu qualquer comunicado daquela entidade a saudar a decisão.
Entre o “porque não Beja?” do PS e o “Beja tem outro papel” do PSD, fica por esclarecer o que se passou entre a reunião de julho de 2025 e o anúncio de outubro de 2026.