A única coisa boa que resultou do maior roubo de sempre na história do nosso país (que todos nós portugueses estamos a pagar) é, para este Governo, uma insignificância passível de ser alienada à pressa, sem o aval de especialistas e em desrespeito pelas decisões dos tribunais. Na perspetiva do Governo, Miró não serve a Portugal.
Nesta linha de pensamento, porque não vender então os Jerónimos? Os Clérigos? As Berlengas? O Galo de Barcelos? E o Castelo de Beja? Sim, um castelo daria certamente uns cobres para abater à dívida. Melhor: vendamos a nossa alma que, a partir desse momento, nada mais nos pesará na consciência e poderemos alienar até as nossas queridas mães.
Não apelo, por isso, à consciência dos governantes, porque essa eles já demonstraram ter pouca (ou nenhuma). Apelo, sim, à análise fria dos números, faina em que os próprios se consideram mais que os outros. E vamos a eles
O estudo “A cultura e a criatividade na internacionalização da economia portuguesa”, da autoria da Sociedade de Consultores Augusto Mateus & Associados, encomendado e tornado público pelo atual Governo, em novembro de 2013, realça a importância económica das indústrias criativas e relacionadas. Entre 2001 e 2011 estas tiveram taxas de crescimento entre os 10 e os 11%, acima do ritmo exportador da economia portuguesa, demonstrando, entre outros indicadores favoráveis, maior resiliência deste subsector à crise mundial, instalada a partir de 2009, quando comparado com a generalidade das exportações nacionais.
Na Europa, as indústrias criativas representam um volume de negócios de 654 mil milhões de euros, correspondendo a 2,6 % do Produto Interno Bruto da União Europeia, e estão a crescer 12,3%, acima da média da economia, empregando cerca de 6 milhões de pessoas.
Regressando à Península Ibérica de Miró, e de acordo com um estudo da Addict Agência para o Desenvolvimento das Indústrias Criativas, no espaço do Norte de Portugal e da Galiza, este subsector fatura anualmente 1.200 milhões de euros, empregando mais de 64 mil pessoas.
É, pois, de uma incompetência a todos os níveis tentar vender as obras de Miró à pressa e sem reflexão aprofundada. Não se trata “apenas” de ter sensibilidade para a cultura (seria pedir demais a quem se assume obcecado pelos números), trata-se de economia pura e dura – que até deveria ser “uma praia” mais agradável aos nossos burocratas.
Ora vejamos: mantendo a coleção no domínio público e tornando-a visitável, em poucos anos, atrairia a Portugal milhares e milhares de turistas e de especialistas em arte, gerando mais-valias importantes para a economia que superariam amplamente o resultado expetável da venda das obras uns míseros 30 milhões de euros.
Não ver isto é não entender a importância demonstrada da cultura, do património e da criatividade para a dinamização e internacionalização da economia portuguesa. Não ver isto é, em suma, não perceber nada de economia.
Em Portugal, da grandiosidade da arte de Miró, às indústrias criativas, vai um (des)governo de distância e, perante tanta asneira, é bom começarmos todos a dar importância às palavras premonitórias do economista Augusto Mateus (o mesmo do estudo que o Governo encomendou): “as indústrias vão todas ter que ser criativas se não desaparecem.”
E à “indústria da política”, se continuar sem pinga de criatividade, o que acontecerá?
Marcos Aguiar