em que o suposto inimigo do judeu ferido na berma do caminho se aproxima e cuida das feridas daquele homem, tornando-se o seu próximo, em todas as dimensões da dignidade humana, para além das diferenças de raça e de religião.
Este samaritano cumpriu com toda a verdade os mandamentos, amor a Deus e ao próximo e por isso fez o que era preciso para alcançar a vida eterna, enquanto os outros passantes que nada fizeram para socorrer aquele ferido, por mais religiosos e ocupados em coisas piedosas que estivessem, não cumpriram o que era necessário, naquelas circunstâncias, para alcançarem a vida eterna.
Esta passagem bíblica aflorou à minha mente ao pensar em muitas situações do presente, na politica, na sociedade e na Igreja. As ideologias, os princípios doutrinais, as medidas estruturais precisam de ser verificadas na vida de cada ser humano e nas suas relações e situações concretas. A proximidade, ultrapassando credos, ideologias e preconceitos, é necessária para salvar a humanidade e dar credibilidade às doutrinas e instituições.
Vem isto a propósito da situação que estamos a viver, no pais, no mundo global e na Igreja. Começo por esta e fixo-me apenas na figura do atual Papa Francisco. A sua linguagem evangélica, simples, direta e vivida nos gestos e atitudes pessoais que assume, é um exemplo para todos os que exercem algum ministério na Igreja. Quem assim vive, toca de perto na dignidade da pessoa humana, ajudando a curar as suas feridas, causadas por muitos atropelos da justiça que lhe é devida.
Não basta repetir os princípios e valores evangélicos, ditos e vividos por Jesus Cristo. Não é suficiente rezar e celebrar bem a fé. É preciso dar o nosso contributo para ajudar a curar as feridas do nosso próximo, na família, na escola, no mundo do trabalho e do lazer, nas instituições sociais e dos cuidados de saúde, no anonimato das grandes cidades e na solidão da interioridade, entre os que falam a nossa língua e são da nossa igreja e entre os migrantes, à procura de uma vida melhor entre nós, de todos nos fazendo próximos.
2. D. Manuel Falcão, próximo de Deus e dos pobres
Menos conhecido e propalado pelos meios de comunicação social foi a pessoa de D. Manuel Falcão, falecido há dois anos como bispo emérito de Beja, meu direto antecessor, com quem vivi e convivi debaixo do mesmo teto durante treze anos. Mesmo assim muitas coisas apenas as descobri e compreendi depois da sua morte, algumas delas através do seu rico epistolário. Muitas cartas estão cheias de palavras, parcas e precisas, mas sempre consoladoras nas mais difíceis situações, acompanhadas de algum cheque para resolver problemas diversos.
Sabendo que havia pessoas que abusavam da sua bondade e generosidade, algumas vezes lhe transmitia os meus conhecimentos sobre isso. Mas ele dizia-me: prefiro ser enganado ao ajudar quem não precisa, do que deixar de ajudar quem precisa, pois só Deus conhece o interior das pessoas.
Por outro lado, interpelava pessoas dotadas de meios económicos para ajudar famílias e instituições necessitadas. Angariou muitos meios para obras sociais e eclesiais na diocese de Beja e fora dela, no país e nas missões. Mas também distribuiu muito dos seus rendimentos da herança de família.
Deus, que conhece os corações e transforma a nossa vil prata em tesouros de vida eterna, conceda a este meu irmão bispo, que me acompanhou de perto nesta diocese, a alegria da bem-aventurança eterna, onde a proximidade se transforma em comunhão de amor com Deus e todos os irmãos.
No dia 23, às 18,00 horas, na Sé de Beja, celebraremos a nossa gratidão a D. Manuel, no segundo aniversário do seu falecimento, que ocorreu a 21 de fevereiro de 2012. Obrigado, D. Manuel. Oxalá saibamos ser dignos do bispo e irmão que tivemos e que ele interceda por nós junto de Deus.
António Vitalino, bispo de Beja