Por estes dias, em Beja, começam a alinhar-se as peças para o tabuleiro das autárquicas. Já se conhecem alguns dos protagonistas: Paulo Arsénio recandidata-se pelo PS; Palma Ferro avança pelo Movimento Beja Consegue; Vítor Picado representa a CDU. E agora, entra em cena David Catita, o nome escolhido pelo Chega para disputar a presidência da Câmara Municipal.
A política, tal como a conhecemos, vive do momento, mas também da memória. E o momento atual é, em grande parte, o reflexo da herança deixada por António Costa e pela chamada “geringonça”, esse arranjo político que enfiou o país num buraco de instabilidade e desilusão. A erosão da confiança no Partido Socialista foi evidente nas últimas legislativas, onde uma parte significativa do eleitorado trocou a resignação pela revolta.
E essa revolta não ficou nas urnas das legislativas. Vai transbordar, com força, para as urnas autárquicas.
Ainda que, por tradição, se diga que nas autárquicas se vota mais nas pessoas do que nos partidos, e é, em parte, verdade, este ano há um peso político que se sobrepõe às afinidades locais. Muitos autarcas socialistas, mesmo os que têm obra feita, vão carregar o fardo dos erros dos líderes nacionais. A imagem de Costa, agora no palco europeu, e a sombra de Pedro Nuno Santos, continuarão a pairar sobre os candidatos do PS, como uma nuvem que não se dissipa facilmente.
No caso específico de Beja, Paulo Arsénio parte para esta corrida já com o terreno minado. A sua reeleição não era garantida. Palma Ferro, com esse cenário, tinha grande hipótese de ganhar. Mas com a entrada de David Catita, a equação muda de forma relevante.
O candidato do Chega tem potencial para captar eleitorado do PSD. Isso, ironicamente, pode beneficiar Arsénio, dividindo o campo opositor.
No entanto, se o Partido Socialista repetir os erros cometidos durante a campanha das legislativas, centrando o discurso num ataque obsessivo ao Chega, poderá acabar por dar um “tiro no pé”. O “anti-Chega” como bandeira, nunca foi e não é o caminho. E o mesmo se aplica ao PSD.
No fundo, estas eleições em Beja vão ser um teste, não apenas às lideranças locais, mas à nova realidade política que se vive em Portugal. Um teste à maturidade dos eleitores e à capacidade dos candidatos saírem das trincheiras ideológicas e falarem para as pessoas.